quarta-feira, 19 de junho de 2013

A caminhada da dúvida

Tinha punk de moicano e playboy de mocassim. Patricinha de olho azul e rasta de olho vermelho. Tinha uns barbudos do PCO exigindo que se reestatize o que foi privatizado e engomados a la Tea Party sonhando com a privatização de todo o resto. Tinha quem realmente se estrepa com esses 20 centavos e neguinho que não rela a barriga numa catraca de ônibus desde os tempos da brilhantina. Tinha a esperança de que este fossse um momento importante na história do país e a suspeita de que talvez o gás da indignação, nas próximas semanas, vá para o vinagre.

Sejamos francos, companheiros: ninguém tá entendendo nada. Nem a imprensa nem os políticos nem os manifestantes, muito menos este que vos escreve e vem, humilde ou pretensiosamente, expor sua perplexidade e ignorância.

Anteontem, depois da passeata, assisti ao "Roda Viva" com Nina Capello e Lucas Monteiro de Oliveira, integrantes do Movimento Passe Livre. Ficou claro que, embora inteligentes e bem articulados, eles tampouco compreendem onde é que foram amarrar seus burros. "Vocês começaram com uma canoa e tão aí com uma arca de Noé", observou o coronel José Vicente. Os dois insistiram que não, o que há é um canoão, e as mais de 200 mil pessoas que saíram às ruas no Brasil, segunda-feira, lutavam por transporte público mais barato e eficiente. A posição dos ativistas de não se colocarem como os catalisadores de todas as angústias nacionais e seguirem batendo na tecla do transporte só os enobrece, mas estarão certos na percepção?

Duzentas mil pessoas de esquerda, de direita, de Nike e de coturno por causa da tarifa?

"Por que você tá aqui no protesto?", perguntou a repórter do "TV Folha" a uma garota na manifestação do dia 11: "Olha, eu não consigo imaginar uma razão para não estar aqui, na verdade", foi sua resposta. Corrupção, impunidade, a PEC 37, o aumento dos homicídios, os gastos com os estádios para a Copa, nosso IDH, a qualidade das escolas e hospitais públicos são todos excelentes motivos para que se saia às ruas e se tente melhorar o país, mas já o eram duas semanas atrás: por que não havia passeatas? Será porque a chegada do PT ao poder anestesiou os movimentos sociais, dificultando a percepção de que o Brasil vem melhorando, melhorando, melhorando e... continua péssimo? Ou será porque agora o Facebook e o Twitter facilitam a comunicação?

Se as dúvidas sobre as motivações que brotam do solo minimamente sondável do presente já são grandes, o que dizer sobre o futuro do movimento? Marchará ou murchará? Caso cresça: conseguirá abaixar a tarifa? E, no longo prazo, terá alguma relevância? Mais ainda: adianta ir às ruas, fazer barulho? Ou a própria passeata extingue o impulso de revolta que a criou e voltamos todos para o mundinho idêntico de todos os dias, com a sensação apaziguadora de que "fiz a minha parte"?


Não tenho a menor ideia, estou mais confuso que o Datena diante da enquete, mas num país injusto como o nosso, em que a única certeza parecia ser a de que, aconteça o que acontecer, Marco Feliciano agora peita e coage Dilma a não se meter na cura gay. As dúvidas dos últimos dias persistem e devem fazer parte das perguntas sem respostas que alimentam a existência dos ufólogos mundo afora...

sexta-feira, 14 de junho de 2013

Flatulências e eructações


Se eu fosse um escritor famoso como Drummond ou Saramago, me seria permitido falar aberta e escrachadamente sobre os termos técnicos da flatulência e da eructação. Mas para não parecer deselegante perante meus leitores vou preferir fazer minha dissertação comparativa aos ditos termos científicos e a realidade que de repente cobriu as terras tucujus de obras por toda parte.

Camilo resolveu incorporar o espirito de JK e encher as terras da capital de tapumes, de onde lê-se em garrafal vernáculo que “agora a coisa anda!”. Talvez desprovido de um pouco de audácia, esta que não faltou a Juscelino quando desbravou o planalto fincando colunas de concreto na sua capital solitária. Ou até um presumido surto de inocência politica, Camilo esquece-se que a maioria das pirâmides anunciadas, não durarão menos que o resto de seu insosso mandato.

Num afã desenfreado em diminuir sua rejeição que a cada dia mais cresce, e não pelo fermento da oposição, mas pelas inúmeras mãos amigas que lhe aplaudem os feitos nada gloriosos e lhe fazem a cortês saudação do dia: “Tá tudo bem governador!” e assim lhe levam no bico, sob os ares das inúmeras eructações diárias de que no mar azul por onde Camilo navega, ninguém, por mais visível que seja, lhe tem a coragem de gritar: Iceberg!

Talvez por este esmerado cuidado dos condutores das pastas governamentais,  o ócio e a inercia do governante nos últimos três anos tenha sido tão grande, pois se achar que se está tudo em ordem, por que tomar alguma atitude que desagrade os cardeais partidários e seus balaios de apaniguados que como carrapatos encrustados no úbere da grande mãe Amapá, continuam a sugar-lhe o néctar até nada mais restar.

Mas calma! Se este velho úbere secar, ainda se tem a probabilidade de lhe repor mais leite, afinal para que existe o BNDES? Senão para abrir mais linha e amamentar os desvalidos, enquanto os que ainda nem saíram pelas portas do ventre materno, já estão endividados até a vida adulta.

É neste quadro que vemos mais uma vez a demagogia baratíssima em cima do já tão combalido amapaense criar corpo, e aquele que deveria ter um mínimo de respeito com o bom senso e com a inteligência dos que um dia acreditaram nas promessas de palanque apenas sentem os ventos das fartas flatulências de obras eleitoreiras, mas que não se esqueçam que que primeiro vem os gases e logo em seguida as excrescências.

 

sábado, 1 de junho de 2013

Policia para quem precisa...

O "poder de polícia", a sua adequada extensão, os efeitos esperados e indesejáveis de seu emprego, assim como os expedientes internos e externos voltados para a implantação de um controle eficaz e transparente, têm constituído um dos pontos centrais das reflexões acadêmicas internacionais sobre os meios de força comedida. Têm-se apresentado, também, como uma questão complexa, recorrente e de difícil enfrentamento, que vem ocupando, desde há muito tempo, um lugar estratégico na agenda política dos países com uma longa tradição democrática como a Inglaterra, os Estados Unidos e o Canadá. Nesses países, os avanços em termos da ampliação dos direitos civis, do reconhecimento dos direitos difusos e emergentes se fizeram acompanhar de intervenções no ordenamento jurídico e de significativas reformas nas agências policiais. Nos últimos cinqüenta anos, mudaram-se as doutrinas, mandatos, missões, procedimentos normativos, tecnologias e modelos de uso da força das polícias.  Tudo isso ocorreu ao mesmo tempo em que importantes centros de pesquisa como as Universidades de Oxford e Chicago, construíam um rico e volumoso acervo de produções científicas relacionadas ao tema. 

 No caso do Brasil, só bem recentemente o debate em torno das polícias alcançou um lugar de destaque, mobilizando a comunidade científica, a sociedade civil e os tomadores de decisão. Durante um bom tempo, os assuntos relativos à construção de uma segurança pública democrática e, por sua vez, a redefinição do papel das agências policiais permaneceram, curiosamente, à margem do processo de consolidação da democracia vivido no país. Foi, precisamente, nesta década que a "crise da segurança" ganhou relevância pública. A "revolta das praças", ocorrida em vários estados, no ano de 97, contribuiu, ainda que por uma via traumática, para emprestar uma maior visibilidade ao problema das polícias brasileiras, evidenciando os enormes riscos a que está exposta a sustentação do estado de direito, quando se tem uma debilidade crescente dos organismos policiais aliada ao discreto conhecimento sobre a sua realidade.

Não sem fundamento, os estudos contemporâneos sobre as organizações policiais identificam os processos individuais de tomada de decisão - essencialmente discricionários e, ao mesmo tempo, indispensáveis a qualquer ação policial - como o estado da arte das teorias de polícia. A partir deles pode-se melhor compreender, por exemplo, as especificidades das ferramentas de controle social difuso, os modos pelos quais essas ferramentas pacíficas produzem obediência por meios também pacíficos e, principalmente, as formas concretas de exercício do abstrato poder de polícia e as prováveis razões de suas externalidades em ambientes sóciopolíticos singulares.

Administrar, em cada ocorrência atendida ou no curso de uma ação escolhida, a validação moral dessa ação, a subordinação ao império da lei e as necessidades operacionais derivadas da missão de preservar a ordem pública (eficácia, eficiência e efetividade), constitui o principal desafio da polícia ostensiva. Isso fica mais evidente se consideramos que o seu balcão de atendimento é capilarizado, individualizado e ambulante, sendo concretamente exercido por cada um dos PMs que patrulham nas ruas da nossa cidade.

A esta altura, parece oportuno enfatizar que no mundo policial ostensivo a oportunidade de agir no agora já das coisas, pessoas e acontecimentos requer, por excelência, a construção individualizada e singular de termos possíveis de conciliação entre as várias ordens do que é "prescrito" e as diversas dinâmicas informais que conformam o "praticado". O emprego cotidiano e pervasivo do recurso discricionário, num cenário fluido marcado pela necessidade imperiosa de presteza e pelo caráter irredutível das contingências, exige dos agentes da lei o famoso "jogo de cintura" expresso na aquisição on the job de habilidades diferenciadas de interpretação da realidade. Aqui, o que parece está em questão é uma espécie de hipertrofia do lugar social de intérprete posto para qualquer ator na administração da vida ordinária. Em função do próprio campo de atuação ostensiva da polícia, os processos interpretativos acionados pelos policiais encontram-se, eles mesmos, subordinados aos caprichos das circunstâncias que estruturam os eventos.  A formulação de juízos em "estado prático" é, nesse caso, levada até as últimas conseqüências. Na condução das ocorrências, mesmo aquelas mais banais, mostra-se necessário extrair dos próprios fatos as chaves interpretativas através das quais eles possam ser lidos. O saber-ato policial sintetiza esse processo da seguinte maneira: "cada ocorrência é sempre uma ocorrência diferente".  Tudo isso se volta para construir, ao nível prático, algum grau de convergência das idiossincrasias dos episódios "assumidos" e suas possíveis traduções, nos termos do que se considera produtivo, adequado, satisfatório, legal e legítimo. Para o PM que está agora ali na esquina, trata-se, portanto, de acionar a arquitetura reflexiva do "bom senso" e identificar "o que fazer" e "como agir" em cada situação, em cada fato particular.  Talvez por conta disso, o "saber policial de rua" se qualifique a lidar com o improviso, confundindo-se, em boa medida, com as experiências e valores pessoais acumulados por cada policial.

Somam-se às espinhosas questões derivadas da disciplina militar, algumas sobrevivências relativas ao período de criação e institucionalização das polícias,  que parecem permanecer como um desafio a ser encarado nos dias de hoje. A perspectiva militarizada das forças policiais ostensivas continua a seduzir executivos de segurança pública e setores do senso comum ilustrado, sobretudo quando os problemas em foco são  a "a guerra contra o crime", o “lado operacional da polícia” e o necessário “controle dos homens armados” que fazem cumprir a lei. A despeito das mudanças do regime político e das alterações do sistema policial brasileiro, outros anacronismos ainda se fazem presentes pós virada do milênio, comprometendo a indispensável profissionalização dos assuntos de polícia: a visão de que a segurança pública corresponde a uma caçada dos inimigos da “boa ordem e da paz pública”; a perversa associação das questões de ordem pública com aquelas relativas à soberania do Estado; as demandas para que o Exército atue nos assuntos de ordem pública, imprimiram a sua marca em nosso passado e ainda têm configurado uma sombria realidade na vida democrática brasileira. 

domingo, 19 de maio de 2013

O ócio do pescador


Em polvorosa ficou o nordeste durante o ultimo sábado desde que um rumoroso boato sobre a extinção do Bolsa Família, o programa federal que superpopularizou o ex-presidente Lula, rendeu-lhe um segundo mandato e de brinde, produziu sua sucessora a presidente Dilma Rousseff.

A falsa informação de que o programa Bolsa Família seria extinto causou correria, confusão e tumulto em muitos estados do Nordeste. O boato levou centenas beneficiários a tentar sacar o dinheiro em casas lotéricas e terminais de autoatendimento da Caixa Econômica Federal. 

No Maranhão a boataria e o desespero começaram após um atraso no cronograma de pagamento do benefício e como a correria aos bancos foi além do normal, muitos terminais ficaram sem dinheiro e foram depredados. Também houve tumultos na Bahia, Alagoas e Piauí.

Segundo a nota do MDS (Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome), "não há qualquer veracidade nos boatos relativos à suspensão ou interrupção dos pagamentos do Programa Bolsa Família e não há qualquer possibilidade de alteração nas regras do Programa”.

Mas o que mais intriga é a dualidade da dependência que as camadas mais humildes da sociedade têm para com o programa. Já que de um lado foi responsável pela diminuição do índice de miseráveis no Brasil, rendendo para Lula, votos e um crescimento desproporcional das glândulas lacrimais toda vez que esboçava emoção ao falar dos tais resultados alcançados.

Mas o outro lado da moeda também é intrigante quiçá trágico; pois ao visitar algumas localidades onde existe um grande número de beneficiários do milagroso benefício, vê-se também que ele trouxe um efeito colateral antagônico a miséria: O ócio.

Dez horas da manhã de uma terça feira em uma comunidade ribeirinha. Famílias sentadas na varanda das casas, a jogar dominó e bebericar café, enquanto o patriarca embala-se em uma rede. Quadro que seria comum num domingo. Mas ao olhar para os fundo do domicílio vê-se a casa de farinha com o tacho frio, a horta com algumas ervas daninhas e nenhuma galinha a ciscar no terreiro.

Em uma incursão curiosa ao perguntar a um dos frenéticos batedores de dominó se há farinha de mandioca para vender, a resposta me vem taxativa: “Não fizemos farinha não moço, agora a gente compra na venda com a bolsa família!”.

E por aí vai o rol das atividades das famílias que tinham algum complemento na agricultura familiar, esvaindo-se na escora do programa que ao invés de ensinar a pescar, dá o peixe já embrulhado. Onde nenhuma exigência é cobrada para que se mantenha o clima de paz e tranquilidade. Mas não sou leviano de generalizar todas as famílias e coloca-las no mesmo conjunto universo. Mas vale lembrar que se formos atualizar os números dos miseráveis considerando a inflação, surgem como que por magica 22 milhões de novos miseráveis com ou sem bolsa.

Mas o que é preocupante é que não são apenas casos isolados e sim cada vez mais comuns. Que viaja muito pelas estradas Brasil adentro deve lembrar-se do farto comercio de beira de estrada onde os produtores rurais comercializavam seus produtos com os veículos que passavam. Hoje não, apenas os esqueletos das barracas permanecem na beira da pista.

Talvez isso explique o porquê da correria aos terminais da Caixa Econômica ao mínimo sinal de que as bolsas seriam extintas. O desespero talvez, não seja o de perder a bolsa, mas em si o que ela tem proporcionado à maioria dos beneficiários: Um estímulo não só ao ócio, mas a criação de uma dependência econômica familiar que se arraiga cada vez mais e que com o tempo se torne secular e nunca mais possa ser extirpada dos costumes da classe mais pobre, que pensou receber um tesouro e no fim de tudo recebeu apenas um incentivo para estender o gozo do fim de semana para uma vida inteira.

domingo, 28 de abril de 2013

Frente de igreja, quarto de bordel


A crise que eletrifica as relações do Congresso com o STF há 72 horas foi fabricada numa pseudovotação que durou 1 minuto e 47 segundos (ouça aqui). Foi o tempo que a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara levou para aprovar, na tarde de quarta-feira, a proposta de emenda constitucional que submete algumas decisões do Supremo ao crivo do Legislativo. O condenado do mensalão José Genoíno (PT-SP) pediu pressa: “É bom a gente votar logo.”

São membros da comissão 130 deputados, entre titulares e suplentes. Documento oficial informa que estavam presentes 67. Lorota. A secretaria da comissão informou à direção da Câmara que o quórum restringia-se a cerca de 20 parlamentares. Os outros passaram pela comissão, assinaram a lista de presença e foram embora. Entre os que ficaram não houve quem se animasse a debater a matéria.

Apresentada pelo petista Nazareno Fonteles (PI) e relatada pelo tucano João Campos (GO), a proposta tóxica foi levada a voto em sessão presidida por Décio Lima (SC), também petista. Havia outros projetos na fila. Mas os relatores ausentaram-se. “A gente segue a pauta e espera o relator”, sugeriu Genoíno.  Decidiu-se inverter a ordem de votação.

Décio Lima, um deputado ligado à ministra petista Ideli Salvatti (Relações Institucionais da Presidência), explicou que o companheiro Fonteles já havia requerido a inversão. E começou a ler o enunciado da proposta. Prevê que algumas decisões do STF só valerão depois de passar pelo aval do Congresso. Entre elas as declarações de inconstitucionalidade e as súmulas vinculantes, editadas pelo Supremo para guiar as sentenças das instâncias inferiores do Judiciário.
O petista Décio informou que o tucano João Campos opinara a favor da “admissibilidade” da emenda. Significa dizer que, na opinião dele, o texto não ofende a Constituição e respeita a boa técnica legislativa. “Há votos em separado”, prosseguiu o presidente da sessão, referindo-se aos relatórios que pediam a rejeição da emenda um de Paes Landim (PMDB-PI), outro de Vieira da Cunha (PDT-RS).

Em ritmo de toque de caixa, Décio Lima absteve-se de pedir que fossem lidos os relatórios. Seguiu adiante: “Em discussão o parecer do deputado João Campos.” Passou a palavra para Onofre Santo Agustini (PSD-SC). Imaginou-se que seria aberto o debate. Engano. “Vou apenas fazer o seguinte comentário: como é apenas votar a admissibilidade, não vejo razão para discutir. Sou favorável à PEC”, limitou-se a dizer Onofre Agustini.

E Décio Lima, voltando ao acelerador: “Continua em discussão o parecer. Não havendo quem…” Súbito, o presidente percebe que Genoíno deseja falar. Autoriza. “Senhor presidente, eu já expressei que sou favorável à PEC”, diz o condenado do STF. “E é bom a gente votar logo a admissibilidade dela.” Em ritmo de narrador de corrida de cavalos, o companheiro Décio encaminha a emenda para a reta de chegada.

“Continua em discussão. Não havendo quem queira discuti-la, em votação parecer do eminente deputado João Campos. Os senhores deputados que forem favoráveis permaneçam como se encontram. Aprovado.” Entre o “permaneçam como se encontram” e o “aprovado” não decorreu nem o tempo de um suspiro.

Encerrado o arremedo de votação, ouve-se ao fundo a voz do tucano Eduardo Azeredo (PSDB-MG). Réu no processo do mensalão do PSDB mineiro, à espera de julgamento no STF, ele avisa a Décio Lima que “já chegou o relator” de outro projeto. Pede que a sessão siga seu curso. Na linha de montagem da Comissão de Justiça, estava fabricada a crise que, insolvida, invadiu o final de semana.

Nesta sexta-feira, o ministro Dias Toffoli, do STF, enviou ofício ao presidente da Câmara, Henrique Eduardo Alves (PMDB-RN). Determinou que fossem encaminhadas à Corte, em 72 horas (a contar do recebimento), explicações sobre o que se passou na Comissão de Constituição e Justiça. Fez isso porque lhe coube relatar um mandado de segurança impetrado pelo PSDB e pelo ex-PPS, agora MD.

Um dos signatários da peça, o líder do PSDB na Câmara, Carlos Sampaio (SP), vive uma experiência paradoxal. Recorre ao STF para brecar a tramitação da proposta que seu vice-líder, o deputado João Campos, referendou. Para Sampaio, o projeto do petista Fonteles não é apenas inconstitucional. Trata-se de “uma aberração”. Para o bico de Campos, é uma “ponderada contribuição”, capaz de devolver o STF ao seu lugar. “O Supremo vem se tornando um super legislativo”, anota o tucano em seu parecer.

Surpreendido com a novidade, Henrique Alves conversou com o petista Décio Lima, o presidente do desastre. Perguntou o que sucedera. Ouviu uma explicação singela: a pauta da comissão está atulhada e ele decidiu limpar as prateleiras. A emenda de Fonteles era de 2011. E não havia razões para sobrestá-la.

Numa tentativa de jogar água fria na fervura, Henrique Alves decidiu levar a emenda ao freezer. Adiou por tempo indeterminado a comissão especial que teria de ser constituída para analisar o mérito da emenda anti-STF depois que a Comissão de Justiça considerou-a apta a tramitar.

Nesta segunda-feira, Henrique e o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), se reunirão com o ministro Gilmar Mendes, do STF. Tentarão convencê-lo a rever a liminar que sustou a tramitação do projeto de lei que impõe um torniquete financeiro e de propaganda aos novos partidos. No condomínio governista, dá-se de barato que a liminar de Gilmar foi uma reação à emenda do companheiro Fonteles.

Há nos arquivos da Câmara um documento que mostra como nascem os desastres no Legislativo. Antes de apresentar uma emenda à Constituição, o autor precisa recolher as assinaturas de apoiadores. O deputado Nazareno Fonteles arrastou para dentro de sua emenda 219 jamegões. Gente de todos os partidos  de Chico Alencar (PSOL-RJ) a Ronaldo Caiado (DEM-GO), de Tiririca (PR-SP) ao pastor Marco Feliciano (PSC-SP), de Renan Filho (PMDB-AL) a Zeca Dirceu (PT-PR). Em tese, quem assina deve ler ao menos o cabeçalho da emenda. E a proposta de Nazareno é explícita da primeira letra ao ponto final. Quer dizer: está-se diante de um despautério coletivo.

por Josias de Souza/Portal Uol

sexta-feira, 19 de abril de 2013

A síndrome do tiro no pé




2013 não é um ano eleitoral, mas antecede a um e apesar de a maioria da população não dar conta das articulações que antecedem o pleito. A maioria dos analistas e formadores de opinião já tem uma teoria quase formada sobre os prováveis elegíveis em 2014.

Especulam a torto e a direito que senadores e ex-senadores tem pretensões de sentar-se na cadeira do executivo estadual. Assim como governador e ex-governadores de disputar uma cadeira na sala de veludo azul. Ou até mesmo de uma salada mista de pretensões de quem vai disputar o que. Algo incerto para os outros, mas decidido para os egos dos candidatos.

Apesar deste vasto cobertor de retalhos da política local ainda estar em ampla costura, os quadros são previsíveis, afinal, como reza a lei da ficha limpa: se não for sujo que se candidate! Então até lá tudo pode.

Mas o que tem intrigado a muitos e tirado o sono de alguns líderes de  facções  e agremiações politicas que fazem coro com a base do governo, é essa mania insistente de tomar medidas antipáticas ou até mesmo levianas para quem até o momento sustenta a bandeira de candidato natural, como é o caso do atual governador.

Perplexos a cada dia. Estas cabeças preocupadas com o portador da coroa, vêem a cada momento a tênue linha que sustenta parentes, aderentes, alhos e bugalhos, se enfraquecer diante da cólera atiçada de cada segmento da sociedade que é capaz de dar ou não o passe livre nas urnas para um pretenso candidato.

São secretários de estado tomando medidas suicidas, quando se atacam profissionais de saúde; nega-se database, piso e dialogo aos da educação; despejam servidores do caixa escolar sem lenço e sem documento. Enfim uma massa que embora dispersa, pode-se tornar uma turba perigosa para quem planeja uma segunda chance.

Em uma analise menos romântica, podemos até comparar estas ações insanas com a letra daquela musica: "Who let the dogs out?" Ou quem deixou os cachorros saírem. Pois pelo que se vê, a alcateia se soltou e cada um tem feito suas necessidades nos postes que lhes convém, sem ao menos se preocupar com o amanhã.

Haja vista que a população de um modo em geral já aprendeu a fazer uso da palavra e da ação de negar oportunidade a quem lhe esqueceu pelo tempo em que não precisou de um voto. Exemplos vivos de que a famosa "máquina" já não decide eleição como antigamente. São os do ultimo pleito para prefeito, onde o titular da capital cedeu lugar a terceira via, que suplantou o candidato da maquina municipal e a da estadual. E na eleição suplementar, que por mais esforços de obras eleitoreiras milagrosas se fizessem em prol do candidato do governo, o povo disse não.

Desta feita a equipe técnica do atual governador (se é que ele a tem!) se apega a velhos costumes e praticas draconianas para se auto iludirem quanto as chances de se prorrogar a estadia do chefe sem se dar conta que o cano da arma está diretamente apontado para o pé e já disparou tantas vezes que temo que até lá não haja mais pés para descerem as pontes para pedir votos.

sábado, 13 de abril de 2013

Uma possível praga de gafanhotos


A política amapaense tem tido reveses incomuns ao seu tradicionalismo curraleiro de todo o sempre. Haja vista as sucessivas perdas no campo eleitoral que o atual governo tem sofrido, com a tal praga da rejeição que parece assolar os campos socialistas antes da colheita.

Talvez a população tenha ido à razão de que um erro possa ter sido cometido diante do quadro que se apresentara na época das eleições de 2010. De que diante do iminente mal presságio que se abateu sobre todos os prováveis candidatos que disputavam o pleito naquele ano, o candidato socialista fosse o de escolha menos nociva aos anseios de um povo castigado por tantas pragas orthópteras que já haviam consumido o estado.

Ledo engano. Mas há de se convir que as lideranças que partilhavam a intenção de votos dos confusos eleitores em 2010, também tiveram sua parcela de culpa. Já conhecedores de um passado imerso nas trevas e da falta de desenvolvimento. Pratica fadada ao fracasso da política de catar castanhas na floresta para movimentar o mundo e a eterna ação de  guerrear contra tudo e todos. Nada fizeram para impedir o caos que sinalizava voltar.

Ávidos pelo trono de barro, voltaram seus pensamentos nada altruístas à idéia fixa de que cada um seria o "Sassá Mutema" das mazelas do povo amapaense. E com isso, todos colocaram sua estrela reluzente nas testas e sem se importar com o que era melhor para o povo, foram à luta em sua busca solitária em ser governador, senador e outros anseios do campo particular.

2014 vem pedindo passagem e talvez seja a hora de novos ares e lideranças também aproveitarem o cordão, não o da mudança ou da harmonia, pois esta palavras já se sodomizaram na aceitação do eleitor e se esvaíram pelo ralo em idéias já fadadas ao esquecimento; oxalá que sim.

A preocupação maior destes "líderes" que já estão empacotados no velho papel pardo para novamente se colocarem à ribalta para habilitar-se a escolha popular. Não deve ser com eles próprios, mas sim de prevenir o efeito mesmice. Que seria mais um abalo na vida do amapaense que já enfastiado com as crises pede novos ares.

Caso não surja uma escolha entre os réprobos e lazarentos, que pelo menos venha o menos achincalhado de todos. Pois entre escolher entre uma liderança que não esteja maculada pelos vícios do passado e tomar como líder um que possa vir como o "prometido" em uma terra arrasada. É quase como se escolher o anticristo para governar o paraíso.

Experiências com lideranças estrangeiras, advindas do mundo empresarial, são um exemplo vivo de que há uma verdadeira devastação na política local. Os sojeiros como paranaense Blairo Maggi, é um exemplo de como dizimar os políticos locais em detrimento ao poder econômico e de novos nomes para a representatividade de um povo que não o seu.

Aqui no Amapá talvez essa praga de gafanhotos não seja o melhor exemplo de desenvolvimento, já que no ponto de vista agrário, somos menosprezados sempre pelas políticas do Ministério da Agricultura. Mas vale reforçar, que para os gafanhotos, tanto faz se seja quinhão de soja ou uma mata virgem a voracidade é a mesma e o prejuízo também.
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