sábado, 16 de maio de 2015

Pedro, o lobo e as eternas reuniões

Quando me pedem uma análise rápida sobre cenário tucuju atual, as pessoas se assustam quando começo com a velha cantilena do Pedro e o lobo, para quem não conhece a historieta infantil de Sergei Prokofiev é muito simples explicar, já que Pedro sempre gritava a vinda de um suposto lobo que assustava todos ao seu redor e cada um corria para se abrigar do lobo feroz que no fim das quantas nunca aparecia. Talvez por tantos alarmes falsos Pedro tenha perdido a credibilidade perante os seus, e quando finalmente o lobo resolveu atacar e Pedro gritou sua vinda, ninguém mais acreditou e o resultado é que todo mundo foi parar na barriga do lobo.
Basicamente é assim o cenário atual, afinal todo mundo está sempre muito ocupado resolvendo coisas indizíveis naquelas eternas reuniões dos funcionários públicos em que sempre Pedro está gritando a vinda do lobo e sempre se orquestra uma reunião para falar de Deus ao diabo.
Ora bolas, reuniões devem ser esporádicas, emergenciais e/ou balancetes anuais. Há que se trabalhar. Para o povo. Murais, folhetos, folhetins, avisos, papéis – dezenas de milhares de reais gastos – internamente. Para que? Para um ficar sabendo da vida do outro colega? Reparem nisso. Em toda repartição pública você nota dezenas de murais, avisos, ordens, até compra e venda de imóveis. Tudo interno. Aniversário, casamentos, noivados, batizados...
Porém, o pior problema são os funcionários públicos de algumas repartições que, por ser palavra antiga, muito usada no filme “Carnaval na Atlântida”, com Oscarito e Grande Otelo, prefiro registrar, instituições públicas.
Dia inteiro em reuniões, cursos, debates internos, encontros, festividades internas... Tudo em nome da luta contra o câncer da mama, fuga de stress, integração emocional, luta contra a pressão arterial, contra o fumo, contra a depressão, cursos de informática, de liderança de grupo, de racionalização dos serviços e, pasmem, entre tantos outros milhares de encontros internos, a eficiência em atender ao cliente, ao público que paga de seu próprio bolso tudo isso!
E, justamente esse público é que fica sem atendimento. Valorizam o funcionário e se “esquecem” do público, a razão maior de tudo e que até, certa vez, o governo brasileiro criou um tal de “ministério da desburocratização” que foi um verdadeiro mistério...
Mudou tudo. Antigamente (adoro essa palavra) o cliente, o público era o alvo principal das instituições públicas. Hoje é o funcionário!
Você entra num banco. Cadê o gerente? Está em reunião sobre como atender bem o público! Portanto, o público fica mesmo sem atendimento!
Numa secretaria de Estado, cadê o secretário? Está em reunião. Nunca, em toda a minha vida, encontrei um secretário de Estado que não estivesse em reunião.
Só as telefonistas é que nunca estão reunidas. Antes de serem contratadas, recebem a ordem, por escrito, de falarem, primeiro, que o patrão não está. Depois de identificado, pede o seu telefone para retornar a ligação, e esta nunca retorna.
Até certo ponto acho correta esta última atitude pois é lamentável/paradoxal você se dirigir a algum órgão público e ficar horas a fio olhando a cara do funcionário com quem deseja orientar-se – às vezes apenas para saber onde fica determinada sessão – falando e atendendo as pessoas que ficam telefonando para ele. Até você se cansar, perder um tempão e ir para casa telefonar para ele, na certeza absoluta de que, pelo telefone será atendido!
Ou como faço e passo a ensinar meu público leitor. Sentado à frente do gerente que não para de atender ao telefone, ligo de meu celular para o telefone dele e faço a mais absoluta questão de, cara a cara, falar com ele pelo celular.
Mas talvez o mal maior destas intermináveis reuniões seja o fato de que quando o chefe maior pergunta como está sendo resolvida determinada situação, o “povo da reunião” sempre responda:  Está tudo a mil maravilhas!”.

Se você gestor ouvir isso de sua equipe, pode ter certeza de uma coisa: Pedro está gritando que o lobo vem e desta vez ele vem mesmo!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Dolly, a precursora das ovelhas monocromáticas

Stálin era um visionário: na sua paranoia criminosa, ele conseguiu apagar de fotos "oficiais" os inimigos reais (ou imaginários) da sua estimável ditadura muitos anos antes do Photoshop ser inventado.

Mas não só: com igual engenho, ele próprio aparecia em fotos decisivas, sobretudo na companhia de Lênin, como forma de mostrar ao povo soviético quem era o verdadeiro herdeiro bolchevique (tradução: era ele, e não Trótski).

Passou quase um século. Mas a tentação de "apagar" o passado não larga certas cabeças com deficit de liberdade.

Um caso aparentemente menor mostra como: leio na virtualíssima "Slate" que Ben Affleck, um conhecido ator e "liberal" americano ("liberal" no sentido esquerdista do termo), pediu à PBS (televisão pública norte-americana) que um fato da sua família não fosse incluído no documentário "Finding Your Roots" ("encontrando suas raízes").

O referido documentário, da autoria de Henry Louis Gates Jr., procura revelar ao mundo quem eram os antepassados de várias figuras públicas. E um dos antepassados de Ben Affleck era ó miséria das misérias! Um proprietário de escravos.

Affleck, depois de um presumível achaque nervoso, pediu à PBS para apagar essa nódoa. A PBS, em grande gesto deontológico que só honra o jornalismo, concordou. Primeiro, porque o antepassado escravocrata de Affleck "não era má pessoa", disse o autor do programa (sem rir).

E, depois, porque Affleck tinha nomes mais interessantes no cardápio: generais, ativistas dos direitos humanos etc. que não comprometiam a canonização do ator. Para que sujar essa canonização com a ovelha negra, ou branca, da família?

O caso é primoroso porque mostra duas coisas sobre a cabeça de um ator que gosta de debitar grandes lições de moralidade sobre os outros mas que abomina os espelhos que tem em casa.

A primeira lição é a incorrigível ignorância que existe nessa cabeça: qualquer cidadão de um país com passado escravocrata pode ter antepassados pouco recomendáveis. Os Estados Unidos são um caso.

Portugal seria outro: nunca fiz uma história genealógica da família. Falta de interesse, de tempo, ou ambos. Mas não me espantaria que, nos séculos 16 ou 17, houvesse por lá um Borges qualquer que, depois de comprar escravos na África (normalmente de um vendedor negro, que os capturava nas profundezas da selva para os vender na costa), os transportasse depois para as plantações do Novo Mundo.

A ideia de que eu, nascido em 1970, sou responsável por eventuais crimes cometidos por antepassados 300 ou 400 anos atrás só faz sentido na cabeça analfabeta de Ben Affleck.

Confrontado com um antepassado escravocrata, bastava que Affleck usasse algum humor ("felizmente, não o conheci") para que o assunto ficasse encerrado.

Só que "humor" é palavra interdita para um moralista. E esta é a segunda lição: se o caso não servisse para fazer piada, Affleck poderia sempre pedir "perdão" pelos crimes alheios, mantendo o seu halo de santidade.

Essa atitude, aliás, tem sido moda no Ocidente desde que Bill Clinton pediu desculpa pela escravatura; Tony Blair pelas fomes da Irlanda no século 19; ou até João Paulo 2º pelas Cruzadas.

As consciências progressistas sempre aplaudiram essas expiações anacrônicas, talvez por imaginarem que, hoje, ano da graça de 2015, a nossa imaculada conduta jamais será reprovada por quem viver em 2215.

O problema é que, nos Estados Unidos, pedir desculpas não chega. E o milionário Ben Affleck poderia ser confrontado com a indústria das reparações, que nos últimos anos tem exigido quantias exorbitantes à República americana pelos crimes da escravatura.

Perante todos esses dilemas, o que fez Affleck? Simples: para proteger a hipocrisia da imagem (e o recheio da carteira), pediu o exato tipo de censura que ele é sempre o primeiro a condenar. E como sabemos disso?

Ironia final: porque o pedido de censura de Affleck foi revelado pelo WikiLeaks, essa nobre instituição que é o sonho úmido de qualquer "liberal" que se preze.

Não há maior escravidão que esta: sermos vítimas da nossa própria vaidade e estupidez.

sábado, 2 de maio de 2015

A dengue, a biotecnologia e nossos medos

A epidemia de dengue está avançando em 2015, e mais de 100 casos foram registrados até o meio de fevereiro –mais que o dobro do mesmo período no ano anterior. Diante desse cenário, autoridades públicas parecem já entrar em caso de desespero.

Ainda nem está muito claro por que a doença teve um crescimento tão alto após um ano de estiagem –no qual as populações de mosquitos deveriam ter diminuido–, mas prefeitos e governadores do Sudeste, onde a atual epidemia é pior, já cogitam apelar para medidas de eficácia duvidosa na esperança de conseguir alguma coisa.

Em São Paulo, o Instituto Butantan tenta antecipar a distribuição de sua vacina experimental de dengue, que ainda não passou pela chamada fase 3 de testes –aquela que efetivamente avalia a eficácia da doença.

Os governos buscam se eximir de culpa e responsabilizam as prefeituras pela epidemia, é louvável. Mas incentivar que a fase 3 de um teste clínico seja "pulada" é algo que precisa ser bem planejado. A vacina já passou pela fase 1, que avalia segurança, mas ainda assim existe um risco de que o carro vá parar na frente dos bois.

A taxa de sucesso de uma vacina experimental que entra em ensaios clínicos é extremamente baixa, cerca de 6%. Quando chega à fase 3, a probabilidade de sucesso aumenta, mas ainda há grande incerteza sobre risco de fracassar. Como então promover uma campanha de vacinação e convencer as pessoas a terem inoculado em seus organismos um imunizante que pode funcionar, mas pode não funcionar?

É estranho que pouca gente até aqui tenha levantado a voz contra isso, e não está claro se de fato será possível fazê-lo. Mas, se a ideia é empregar todos os recursos contra a dengue, por que o governo não se concentra em turbinar as medidas para combater o mosquito, algo que tem uma eficácia sabida.

A palavra "vacina", aqui no Brasil, é carregada de conotação positiva, muito mais do que a palavra "inseticida", que remete a toxicidade. E pouca gente para para pensar que usar um imunizante de estágio experimental em larga escala é algo que se trata de um experimento "biotecnológico". Essa outra palavra, também, está carregada de um certo receio no imaginário do público, em parte herança das campanhas contra produtos transgênicos no início do século.

Um outro experimento biotecnológico para combater a dengue está sendo feito não com humanos, mas com um mosquito que até pode ser vagamente chamado de "transgênico". É basicamente um inseto macho estéril produzido em condições de laboratório, que é lançado ao ar para buscar as fêmeas e sabotar a reprodução do mosquito selvagem.
Em testes preliminares na Bahia, a empresa britânica Oxitec, que desenvolveu o inseto geneticamente modificado, obteve bons resultados. E no mês passado a companhia anunciou uma parceria com a prefeitura de Piracicaba, no interior paulista, para ampliar seus testes.

As palavras "biotecnologia" e "transgênico", porém, parecem ter feito acender o sinal de alarme no Ministério Público Estadual, que pediu a suspensão temporária dos planos para o teste. Mesmo com o mosquito da Oxitec já tendo passado por uma avaliação de segurança da CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) e três testes iniciais de eficácia, a promotora Maria Christina Marton de Freitas exigiu explicações sobre "quais as razões técnicas que justificam a adoção do uso de biotecnologia experimental em Piracicaba".

É importante que o Ministério Público, uma instituição essencial para a democracia brasileira, tenha liberdade de questionar o que quer que seja no intuito de promover justiça. Seria interessante, porém, que promotores dialogassem mais com as autoridades sanitárias federais e o próprio Butantan. As razões técnicas que justificam o uso de biotecnologia experimental em Piracicaba, afinal, são as mesmas que justificam que uma vacina sem dados de fase 3 seja distribuída em grande escala.

Resta saber quais riscos e benefícios finais o mosquito da Oxitec poderá proporcionar quando aplicado em grande escala. Mas é razoável imaginar que, em se tratando de uma medida experimental, é melhor experimentar com mosquitos estéreis machos que nem sequer picam do que com seres humanos.

segunda-feira, 13 de abril de 2015

PL da terceirização ou o rabo que balança o cachorro?

O Projeto de Lei 4.330 em votação no Congresso Nacional que amplia a liberdade de terceirização do trabalho chama a atenção para os seus aspectos mais visíveis e oculta o mais grave deles.

É sabido que o projeto em questão tenta alterar o cânone jurídico construído por anos de decisões da Justiça do Trabalho que se resumem na vedação da terceirização das atividades fins e da responsabilidade solidária da empresa terceirizadora.

O fim do modelo fordista encerrou quase um século de processo de trabalho fragmentado em pequenas frações. A linha de montagem fordista criou produção em massa a baixo custo. E criou também largas plantas que incorporaram grandes volumes de trabalhadores. Alta identidade no perfil do trabalhador inserido na linha de montagem levou a construção de sindicatos fortes.

Vencido o período que os franceses chamam de “trinta anos de ouro”, quando a produtividade e, logo, a lucratividade mantiveram-se em índices inéditos de crescimento, a segunda metade dos anos 70, a economia capitalista mergulhou em uma crise de produtividade e em resultados econômicos decrescentes. Neste momento, as grandes corporações passaram a buscar novos processos de trabalho, romperam com o “pacto social” não declarado que construiu direitos na negociação coletiva e financiou a construção do Estado de Bem-Estar Social.

O processo de trabalho representa uma ruptura com o padrão de contratação coletiva e regulação do mercado de trabalho ditado pelo Estado. Além do que, a linha (quase centenária) foi substituída por núcleos de produção que se complementam, tal qual os elos de uma corrente. Estes podem ser transferidos para terceiros dentro ou fora do mesmo espaço territorial.

O modelo flexível de processo de trabalho possibilita arranjos que podem alterar, em velocidade inédita para a história da gerência científica, o que hoje é atividade-fim — logo adiante será apenas em parte uma atividade-fim, gerando novas atividades-meio.

Neste cenário, o mais recomendável, aos trabalhadores e empresários, seria deixar à negociação coletiva a (re)definição destes conceitos à luz da evolução tecnológica e concorrência. No cenário de sindicatos únicos pouco representativos e empregadores resistentes a mediação sindical, deve-se admitir que o TST tem feito o melhor que poderia ao tentar preservar a “cobertura” normativa dos trabalhadores terceirizados.

O projeto de lei poderia ter remetido à negociação coletiva; poderia ter exigido maior representatividade dos sindicatos — princípio, aliás, já previsto na lei que regula as centrais sindicais —, mas optou pelo atalho de liberar a terceirização das atividades-fim e, com isso, proceder a uma reforma na representação sindical que pode constituir-se num verdadeiro estelionato legislativo.

A lei, por uma destas espertezas bacharelescas típicas da nossa República, cria uma atividade econômica não prevista no Quadro de Atividades de Ocupações do artigo 577 da CLT, CNES e Convenção de Bruxelas, que são as fontes legais que classificam as atividades econômicas no Brasil: empresa prestadora de serviço.

Qualquer atividade poderá ser terceirizada por uma empresa prestadora de serviço. Ocorre que, atrás deste detalhe aparentemente menor veio uma grande corrida para a criação de sindicatos de empregadores e trabalhadores de empresas “prestadoras de serviço”. Logo, qualquer atividade terceirizada retirará os empregados nesta atividade da proteção de Acordos e Convenções Coletivas celebradas pelos sindicatos da atividade até então terceirizada.

Isto pode ter sido apenas sabujice dos quadros da CNI, mas é certo que a sua adoção não atinge só os trabalhadores.  Atinge também os sindicatos patronais: algum destes quadros na cúpula deste sistema sindical assentado numa burocracia pouco representativa perguntou para a indústria paulista, mineira ou carioca se lhes interessava tal reforma sindical?


Numa economia que se faz produzir desigualdade social, alguém do Congresso Nacional discutiu com a sociedade qual é o padrão de proteção social e sindical que queremos para o futuro?   

segunda-feira, 30 de março de 2015

A TV pública já existe. Já?

A discussão em curso sobre a criação de uma TV pública afasta-nos dos verdadeiros problemas que o setor de radiodifusão enfrenta no Brasil.
Em termos estritos todo o sistema de radiodifusão no Brasil é público. A Constituição Federal, em seu art. 21, XII, a define a radiodifusão de sons e imagens como serviço público, isto é, como atividade de interesse geral regulada pelo Estado e executada direta ou indiretamente por este mesmo Estado (via concessionários, permissionários ou pessoas devidamente autorizadas).
O verdadeiro e mais desafiador problema deste sistema, atualmente, encontra-se no fato de que este serviço público perdeu completamente sua natureza. Como aconteceu com muitos outros serviços públicos no Brasil, os serviços de radiodifusão foram objeto de apropriação privada, perderam sua característica de serviços e tornaram-se um patrimônio objeto de mera especulação econômica.
O mesmo aconteceu, no passado, no terreno das telecomunicações, com os serviços de telefonia fixa. O telefone de fio que, hoje, temos em nossas casas, mediante simples solicitação à concessionária, por tarifas absolutamente módicas, custava, antes da edição da Lei Geral de Telecomunicações (Lei 9.472/97), algo em torno de US$ 3.000, no mercado paralelo de telefones. Este serviço fora também objeto de apropriação especulativa, de modo parecido com o que ocorre, hoje, com os serviços de radiodifusão.
A solução para esse problema não se encontra na criação de uma estação de TV (uma produtora de conteúdo e difusora) pública, mas na republicação de todo o sistema, a partir de uma nova regulação que vise a eliminar as distorções atuais.
É necessário que se reconheça a existência de um mercado no setor da radiodifusão; que uma nova regulação do setor busque o maior grau de liberdade possível (há que se dizer: diversidade de fontes de difusão de comunicação) neste mercado e, necessariamente, que se criem condições para a quebra dos atuais monopólios ou oligopólios existente no setor.
Mas não é só. A nova regulação deve ter em vista possibilitar a atuação de novos produtores de conteúdo, de novos difusores e, ao mesmo tempo, disseminar valores de interesse social (para além dos meramente mercadológicos) na comunicação. Tudo isso passa pela criação de uma rede pública, rede no sentido de infraestrutura física e tecnológica para respaldo da telecomunicação, rede que permita o acesso de uma multiplicidade de difusores num ambiente de crescente convergência tecnológica (entre telefonia, radiodifusão e internet, basicamente).
Nenhum desses objetivos encontra-se amparado pela simples criação de um novo difusor público que está fadado a concorrer em posição subalterna com os atuais oligopolistas da radiodifusão, especialmente no que se refere ao mercado televisivo.

Desafortunadamente, a discussão que hoje se faz carece de foco nos nossos verdadeiros problemas e de interesse (público) em resolvê-los.

terça-feira, 17 de março de 2015

Whats what?

Estou com várias tendinites de novo, além de dor nas costas, joelhos rangendo. Não vou pôr a culpa no excesso de trabalho nem em ninguém. O problema sou eu mesmo. Passei as férias lendo os três grossos volumes da biografia do Getúlio, escrita pelo Lira Neto. Ótima, aliás. Só que li metade na cama e a outra metade na cadeira de praia. Reclinada na posição cama.

O resto do tempo, quando não estava dormindo, cozinhando ou lavando louça, passei lendo notícias no tablet, checando o Instagram e trocando mensagens por SMS, WhatsApp e e-mail, entre outras atividades no celular. Alguém pode imaginar a posição do meu pescoço?

Escrevo WhatsApp e na imaginação ouço vozes pronunciando What’s Up! Mas melhor seria dizer What’s Down! Para baixo! É para o celular que a gente dobra o pescoço. É com o celular que a gente também tensiona o indicador, ou o polegar, ou ambos: para digitar. A propósito, também estou com tendinite na mão direita.

Voltei ao trabalho e passo o dia inteiro em frente a um computador enorme, lindíssimo. Pescoço projetado para a frente do corpo, esse é um dos meus vícios posturais. Outro problema é que a mega tela do computador, descobri hoje, mais de dois anos depois de comprá-lo, é que é grande demais para mim. Eu, que sou mediano, tenho de levantar a cabeça para enxergá-la direito, e com isso tensiono o pescoço.

A alternativa seria levantar a altura da cadeira, mas aí os meus pés não alcançariam o chão e detesto aqueles apoios de pé. Sinto que fico engessado. Quem acredita que um mobiliário “padrão” serve para quem é pequeno ou para quem é grande? Quantos serão os “normais”?
Outra alternativa para o meu caso, pensei agora, seria abaixar a altura da mesa, mas aí eu não poderia dividi-la com outras pessoas, como faço hoje.

O custo de passarmos mais tempo conectados não é só de eletricidade, telefonia, troca de equipamentos com obsolescência programada, atualizações de softwares etc. O custo é de saúde física.

Mas tem três coisas que eu adoro no WhatsApp. 1) Funciona. Até em circunstâncias em que o SMS não funciona (não me pergunte por que o SMS anda tão ruim); 2) Ele não tem publicidade! Que delícia não ser interrompido por mensagens que não estou interessado em receber 3) É uma forma de comunicação mais barata que SMS e telefonia.

Mas sou do tipo que entende o WhatsApp como instrumento de comunicação um a um. Não gosto de receber no WhatsApp mensagens que não foram escritas especificamente para mim.

Minhas filhas são diferentes. Acho que meus amigos também, porque todos vivem com o celular sem som, mas sempre tremendo em cima da mesa por conta do grande número de mensagens que recebem. Não gosto disso porque me interrompe o fluxo do raciocínio, da memória, do trabalho. Distrai. Tira a concentração e a produtividade.


Mas ao me deparar com um amigo de trabalho me mostrando uma DR via whats com todas as onomatopeias possíveis dos pá, pum, paf, pof pra frente, rendo-me as conveniências da modernidade rezando por uma nova rede social via celular em que eu apena fale e a pessoa do outro lado entenda. Aí me lembro que isso já existe há mais de um século: chama-se telefone!

quarta-feira, 11 de março de 2015

A moral, (ou a falta dela)

Quando se vê um discursos de políticos pedindo o fim do financiamento privado em campanhas eleitorais, tentando jogar a conta nos bolsos dos contribuintes, ou até mesmo aquele personagem já caricato por comprar votos falando de probidade, nos questionamos: que moral é essa?
Nossa cultura se baseia na crença predominante de que a moral surge com o intuito de cristalizar as verdades e definir as noções de “Certo” e “errado”. Mas quando é cegamente reproduzida, pode ocasionar efeitos contrários ao seu real objetivo, que seria a convivência harmônica entre os indivíduos de uma mesma sociedade.
A moral existe. E o indivíduo que nasce naquela cultura, irá reagir a ela, sendo de acordo em algumas coisas, desacordo em outras, mas enfim, sempre a partir de algo pré-formulado. Ou seja, suas atitudes não são ações, são reações, construções.
A incoerência começa a surgir quando essa reação á moral é baseada na conveniência e não no conhecimento.
É mais ou menos assim: Se trair é imoral, mas a vontade é grande, eu me lembro daquele conceito machista de que “homem é assim mesmo” e faço. Depois eu vou ao padre aliviar a minha culpa e acredito no conceito cristão de que “o importante é se arrepender”.
No entanto, sou capaz de esquecer rapidamente o machismo, quando chegam as contas e chamo a minha linda esposa pra dividir. E aproveito pra falar mal dos padres pedófilos, no momento em que eles me pedem um trocadinho pra mudar a pintura da igreja. E assim, sempre que eu preciso, eu mudo os meus padrões morais e faço um verdadeiro leque de conveniência.
Isso é o que chamamos de “falsa moral”, ou seja, a utilização de justificativas morais para poder cometer confortavelmente os deslizes e viver de acordo com o que melhor o convém.
A diferença entre o falso moralista e os demais errantes, é que ele afirma estar dentro dos padrões morais, se acha muito correto. Além de se sentir no direito de julgar os demais.
Quando na verdade, a moral não existe pra isso. Ela existe para disciplinar uma dada sociedade, de forma que as pessoas tenham um padrão de “certo” e “errado” razoáveis para viver bem em comunidade.
Alguns vão copiar os padrões ditos “corretos”, outros irão confrontá-los, outros irão propor mudanças que com o passar do tempo poderão se tornar efetivas, mas todos trabalhando “a partir” dela e não “a representando”.
Porque o falso moralista, na verdade se acha o próprio representante da moral, o dono da verdade, mediador entre o certo e o errado. E isso é utópico, portanto, falso. Porque a moral é um padrão não uma realidade praticável em sua plenitude. E nem se faz necessário, porque o próprio exercício de uma conduta moral é subjetivo. Enquanto a moral é objetiva.
Outra coisa interessante nas pessoas que seguem cegamente alguns preceitos morais, é que elas têm a sensação de que aquilo sempre existiu e sempre existirá. Quando na verdade, muitas vezes aquele preceito nem existia há algumas poucas décadas atrás, ou se existiam, eram abomináveis. E de repente, passou a ser louvável.
E muitas vezes, uma mesma pessoa, segue crenças opostas e conflitantes, e acreditam estar tendo uma conduta retilínea. Na verdade, por si só, aquelas crenças não são coerentes nem com elas mesmas.
Por exemplo, alguém já viu a venda um São Francisco de Assis com uma manta caríssima e com detalhes em ouro? E o pior, uma pessoa que se diz devota comprando? Por acaso a pessoa que produziu e principalmente, a que está comprando, conhece os ideais franciscanos?
Será que alguém já viu uma mãe gritando com o filho e pedindo pra que ele faça silencio? E se questionou a noção de silencio essa criança tem?
O que se vê muito são campanhas agressivas contra a agressividade, violência para solucionar violências, medos para evitar perigos, individualismos procurando companhias, saudades de quem não quer que volte... E são assim as falsas procuras, falsas soluções, baseadas na falsa moral.

Pensar antes de falar, conhecer antes de seguir, e fazer silencio na ausência de algo melhor a dizer, faz parte de uma conduta coerente. Seja ela imoral ou não.
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