sexta-feira, 21 de agosto de 2015

A fantasia que sai da boca do intelectual “social"

Conta Aristóteles que seu mestre Platão ocasionalmente interrompia as aulas que ministrava na Academia para questionar-se, e a seus alunos, se no tema desenvolvido eles estavam partindo dos primeiros princípios ou no caminho que se dirige a eles.

No Brasil são poucos, mesmo nos mais sisudos centros acadêmicos, os que efetivamente se preocupam com essa investigação preliminar de máxima importância em qualquer campo do saber.

Nos debates públicos ventilados na imprensa, então, nem se fala. Nesse universo marcado pelo falatório sofístico não só inexiste preocupação com princípios, como a própria linguagem encontra-se tão corrompida que é impossível sequer saber com um mínimo de clareza e precisão do que se está tratando nas discussões.

E o maior problema é que a adulteração do sentido das palavras é deliberada, envolvendo um projeto de dominação ideológica no sentido marxista do termo, a falsa consciência, o véu de ideias forjadas por um grupo para, ocultando a realidade, explorar os demais com a anuência expressa ou tácita dos próprios explorados.

Esse grupo é a classe letrada, a intelligentsia, obcecada pelo socialismo e imbuída do método gramsciano de reforma do senso comum para implementá-lo, como tem denunciado e fartamente provado o filósofo Olavo de Carvalho. A depravação da linguagem torna impossível identificar, isolar, compreender e enfrentar os problemas postos para a coletividade. Como discutir proveitosamente sobre algo que sequer sabemos o que é?

Mas a difícil tarefa de remover a névoa pegajosa e traiçoeira que recobre certas palavras e expressões vertidas incessantemente na imprensa por intelectuais e políticos de "esquerda" (mas não apenas eles), de modo que os interessados de boa-fé possam ao menos tentar entender com alguma nitidez o que realmente está sendo afirmado e se as propostas de ação política reclamadas são compatíveis ou não com os fins (ocultos ou declarados) almejados.

“Justiça Social” é uma das mais, mais na boca de qualquer populista, mas a ‘justitia’ do latim - que exprime conformidade com o Direito, não necessariamente o Direito Positivo, legislado, que pode ser, e frequentemente é; injusto (exemplo da pensão vitalícia de dez mil reais para ex-governadores), mas os princípios gerais derivados dos valores que formam a Ética de um determinado grupo, que antecedem e informam as leis objetivas e sua interpretação, consubstanciado no mister de dar a cada um aquilo que é seu, como diziam os juristas romanos. E cada indivíduo só é proprietário daquilo que produziu com o seu próprio trabalho ou que adquiriu contratualmente por meio de trocas voluntárias.  

Já o ‘sociale’, relativo à sociedade, ou seja, uma coletividade humana. Ora, se justiça é dar a cada um o que é seu, infere-se necessariamente que a existência de mais de um indivíduo é sua condição sine qua non. Não havia necessidade de justiça para o solitário Crusoe em sua ilha deserta, antes do aparecimento do Man Friday. Tudo lhe pertencia. Assim, toda justiça é por definição social, um imperativo de convívio humano. O adjetivo "social" é, pois, redundante e dispensável.

O mesmo obviamente ocorre com outras expressões, tais como "movimento social", "política social", "investimento social", "questão social", "direitos sociais", "democracia social" e muitas outras, um cúmulo do estelionato semântico demagógico. Até o erudito e em geral lúcido J. G. Merquior embarcou nessa canoa furada com o seu "liberalismo social". O economista e filósofo Friedrich Hayek, em seu clássico Law, Legislation and Liberty, deu-se ao trabalho de enumerar dezenas de termos adjetivados com o infalível "social", que nada acrescentava de racional e esclarecedor aos respectivos substantivos.

Se o "social" nada significa de relevante, porque é tão usado? Porque o sentido oculto dessa palavra é "socialismo", ou seja, a intervenção coletiva, política, estatal, na esfera de autonomia individual, mesmo e sobretudo aquela em que as pessoas não estão tomando dos outros o que não lhes pertence.

Em outras palavras, "social", nesse contexto, consiste em ações coercitivas por meios das quais aqueles que detêm o Poder Político ordenam os comportamentos e dispõem do patrimônio dos indivíduos da forma que bem entendem, dando a cada um o que, segundo critérios inteiramente arbitrários, entendem que cada um merece.

Vê-se que o "social" é mais do que tautológico em relação à justiça. É incompatível com ela. "Justiça social" é pura e simplesmente injustiça. E quem aceita esse conceito distorcido e contraditório como premissa para o debate, mesmo que não seja socialista, já admitiu a viabilidade prática e conferiu validade moral ao socialismo.

Acontece que a incessante ladainha dos intelectuais de "esquerda" é justamente atribuir ainda mais poder e mais dinheiro a essa causa insaciável imarcescível que é essa visão enodoada de uma utopia em causa própria!


sábado, 8 de agosto de 2015

Começou tudo errado

Quem pensa tratar-se da corrupção um problema contemporâneo, um invenção dos tucanos ou petistas ledo engano. A corrupção é um problema crônico no Brasil e, apesar de muitos atribuírem esse problema à falta de caráter daqueles que fazem parte de grupos representativos, como políticos e policiais, não podemos negar que mesmo nesses grupos existem pessoas que não se deixam corromper.

Quando se faz uma comparação entre o passado do Brasil e a situação presente, bastam-se apenas trocar os nomes do passado pelos que rondam os noticiários de escândalos políticos para se ter ideia que o enredo é o mesmo, o que mudou foram os nomes e cargos dos personagens.

Um exemplo não mais que pitoresco da raiz profunda da corrupção plantada desde os tempos de colônia, é de Francisco Targini, o Tesoureiro-mor de D. João VI, que é um caso exemplar de corrupção e impunidade nas altas esferas da administração pública.

Nascido em 1756, em Lisboa, Targini era filho de um italiano e começara a carreira numa casa de comércio como caixeiro, progredindo depois para guarda-livros. Na vida pública, seu primeiro cargo importante foi o de arrecadador de rendas da Província do Ceará.

Nomeado em 1783, lá permaneceu até 1799, malquistando-se com os governadores e ouvidores por seus excessos no combate a práticas administrativas desonestas, bradando honestidade e justiça para o povo.

Targini veio para o Rio com a corte em 1807, ao que parece, sua rápida elevação a homem forte das finanças teve o apoio de um poderoso grupo de negociantes ingleses. Depois de nomeado tesoureiro-mor, ele foi agraciado com o título de barão de São Lourenço, em 1811, e elevado a visconde, em 1819.

Um dos boatos que se contavam dizia respeito à compra de mantas para o Exército que Targini fizera a um fornecedor inglês. O hábil homem público teria mandado dividir cada uma das peça ao meio, revendendo-as depois ao governo pelo dobro do preço original.

Targini também passou à história por ter feito nomear diretor da Academia de Artes, em 1820, após a morte de Lebreton, um medíocre pintor português, Henrique José da Silva, e, como secretário, o padre Luís Rafael Soyé  que, , era um “velho eclesiástico espanhol, de origem francesa, sem honorabilidade nem compostura, poeta de água doce e parasita do ministro Targini, que se oferecera para trabalhar pela metade do preço”.

Homem rico, erário pobre este era o alerta nas cartas ao cunhado e ministro “Del Rey”, o conde de Linhares que apontava Targini como o homem mais corrupto da corte de D. João e recomendava sua demissão.

A ostentação de Targini era tamanha, que mesmo sendo pública a sua condição de ordenado modesto, seus bens contradiziam tamanha máxima que seu salário minguado lhe proviesse tantos mimos que o dinheiro do erário pudesse comprar e torna-lo um homem riquíssimo.

Nas agitações que antecederam a partida do rei, em 1821, Targini chegara a ser preso na Ilha das Cobras. Mas, segundo se disse, isso fora apenas para poupá-lo de agressões, tal era a sua impopularidade. Logo foi solto e embarcou rumo a Lisboa.

Houveram críticas por parte da imprensa pelo fato de o conde dos Arcos, principal ministro do regente, D. Pedro, ter dado por justas e liquidadas as contas do tesoureiro-mor e concedido passaporte para aquele se pôr ao fresco. O inquérito contra Targini, conduzido pelo conde dos Arcos, “estabeleceu a integridade do funcionário, a quem foi concedida uma pensão”.

De fato, Targini, quando chegou a Lisboa, em 1821, foi impedido de desembarcar, retirando-se para Paris. Ali viveu até morrer em 1827, certamente com tempo e dinheiro para gastar em suas obras de erudição.


Targini, que “roubava à grande”, ostentando seus ganhos inspirou a quadrinha popular que terminava dizendo: “Quem mais rouba e não esconde/ passa de barão a visconde”.

terça-feira, 14 de julho de 2015

O argumento mais estúpido que o da revolta da vacina

O início do período republicano da história do Brasil foi marcado por vários conflitos e revoltas populares. O Rio de Janeiro não escapou desta situação. Em 1904, estourou um movimento de caráter popular. O motivo que desencadeou a revolta foi a campanha de vacinação obrigatória, imposta pelo governo federal, contra a varíola.

As manifestações populares e conflitos espalham-se pelas ruas da capital brasileira. Populares destruíram bondes, apedrejaram prédios públicos e espalharam a desordem pela cidade. Em 16 de novembro de 1904, o presidente Rodrigues Alves revogou a lei da vacinação obrigatória, colocando nas ruas o exército, a marinha e a polícia para acabar com os tumultos. Em poucos dias a cidade voltava a calma e a ordem.

Da mesma maneira truculenta, o que era polêmico, hoje é comum, como tomar vacina. Talvez por isso, com esse afã de revolta, um dos principais argumentos usados pelos opositores do casamento gay soa tão estúpido que é difícil de entender por que alguém perderia tempo em debatê-lo. Para os inimigos da causa LGBT, permitir a união civil entre pessoas do mesmo sexo provocaria uma banalização do matrimônio heterossexual e enfraqueceria os laços de famílias nesse padrão. Eu sei, é ridículo, mas a ciência deu um passo atrás e se debruçou sobre o assunto.

Imaginar que um homem e uma mulher deixariam de se casar aqui porque dois homens se casaram acolá é tão delirante que chega a ser penoso pensar em entrar numa discussão com alguém que raciocina assim. Mas no contexto da batalha jurídica da ação coletiva que culminou com liberação do casamento gay nos EUA, seria de grande ajuda provar por A mais B que isso estava errado. Os defensores dessa ideia, afinal, poderiam se esconder atrás da falta de evidências.

Quem teve a paciência de elaborar uma pesquisa para testar o argumento de que a união homossexual afetaria o casamento hétero foram as sanitaristas Alexis Dinno e Chelsea Whitney, da Universidade Estadual de Portland, no Oregon. Taxas de casamentos são um tema comum em estudos de saúde pública porque pessoas casadas são em geral mais saudáveis do que aquelas que vivem sozinhas. O resultado de seu trabalho foi publicado em junho de 2013, exatamente um mês antes de o casal James Obergefell e John Arthur, de Ohio, entrar na justiça com o pedido de reconhecimento de seu casamento, no processo que daria origem à ação coletiva.

Para saber se a realização de casamentos entre pessoas do mesmo sexo realmente provocaria uma redução no número de casamentos heterossexuais ou um aumento no número de divórcios as pesquisadoras foram atrás de registros matrimoniais nos 50 estados americanos e analisaram o que ocorreu durante vinte anos, no período entre 1989 e 2009.

As cientistas se valeram do fato de que alguns estados tinham aprovado leis permitindo o a união homossexual durante esse período. Seria possível, então, não apenas comparar estados pró e contra a causa gay mas também analisar como um mesmo estado reagia a duas legislações diferentes em momentos distintos.

A conta foi difícil de fazer, por requerer uma série de correções estatísticas para compensar lacunas em meio aos dados compilados, mas a conclusão não foi exatamente uma surpresa: assim como a revolta da vacina, as polêmicas criadas pelos “achistas” tendem a cair em função do esclarecimento aos menos esclarecidos quando estudos científicos desmistificam o preconceito e a desinformação.

terça-feira, 16 de junho de 2015

Deuses, astronautas e a miopia telescópica

Nas antigas gerações da história do humana, a ligação entre astronomia e crenças religiosas costumava ser harmoniosa. Constelações com frequência eram apontadas como imagens de figuras míticas desde a Grécia antiga até o Brasil pré-cabralino e histórias como a da Estrela de Belém, que guiou os reis magos ao menino Jesus são comuns em narrativas sagradas. Bastou que surgisse uma ciência dos céus mais ambiciosa, porém, para conflitos virem à tona. Galileu Galilei foi censurado no século 17 por defender que a Terra orbita o Sol, e só em 1992 o Vaticano o perdoou oficialmente, sou católico, mas também sou cientista solidário a Galileu. Atualmente, cristãos convivem em harmonia com os astrônomos, mas isso não impede que outras religiões venham a se sentir desrespeitadas pelos estudiosos do Universo.

Quem está enfrentando os astrônomos agora, porém, não é a Igreja Católica, e sim praticantes de uma religião minoritária num arquipélago remoto do Pacífico. Durante quatro décadas, cientistas usaram Mauna Kea, uma montanha na Ilha Grande do Havaí considerada sagrada, para construir telescópios, indo contra pedidos de líderes espirituais. Hoje já existem 12 observatórios no local, mas um projeto que ganhou aval agora o gigante TMT (Telescópio de Trinta Metros), talvez seja o último a se instalar ali. Após protestos com nativos fechando estradas em Mauna Kea e em Hononulu, capital estadual, o governo determinou que é hora de começar a desativar alguns equipamentos.

Mauna Kea, um vulcão extinto que forma um pico de 4.200 metros de altitude, é considerado pela tradição havaiana uma figura mítica em si. É ele o primeiro dos filhos de Wakea (o pai Sol) com Papa (a mãe-Terra): é onde o arquipélago do Havaí começou a nascer. O local é também considerado o lar de Poliahu, deusa da neve, e abriga em sua encosta o pequeno lago Waiau, um centro de batismo onde são depositados cordões umbilicais. Por seu caráter sagrado, a montanha teve vias de acesso controladas ao longo dos séculos, e apenas líderes tribais de alto escalão podiam visitar o pico.

Foi assim até 1960, quando o astrônomo Gerard Kuiper chegou perto do pico e constatou seu potencial para observação do céu. Algumas cidades da ilha tinham acabado de ser devastadas por um tsunami, e os comerciantes locais acharam que seria uma boa ideia atrair grandes projetos de astronomia para o arquipélago como forma de ajudar a reavivar a economia local. Construiu-se uma estrada de acesso à montanha e, em 1968, o terreno estadual que abriga o pico de Mauna Kea foi arrendado para a Universidade do Havaí num contrato de 65 anos. Em 1970, implantou-se o primeiro observatório lá, operando um telescópio de 2,2 metros de diâmetro. E desde então o lugar virou uma Meca da astronomia, com a universidade sendo procurada pelos projetos mais ambiciosos do campo.

Quem sobe em Mauna Kea para assistir a um pôr do Sol logo percebe por que o local é tão especial tanto para a religião quanto para a ciência. O pico, que fica quase permanentemente acima das nuvens, oferece uma visão espetacular da ilha e de seus outros vulcões. É o tipo de paisagem que inspira sentimento de transcendência e respeito pela natureza. E quando se olha para cima, o céu que fica totalmente limpo em 325 noites por ano é considerado por astrônomos um presente dos deuses.

Durante 20 anos de funcionamento, o Observatório Keck, o maior de Mauna Kea, tem tido um papel importante em temas de ponta da astronomia, particularmente no estudo de planetas fora do Sistema Solar. O TMT terá uma escala a ponto de ajudar a analisar a composição atmosférica desses planetas, e promete ser uma ferramenta útil no estudo da misteriosa matéria escura, que compõe 85% da massa do Universo. Mas mesmo os outros observatórios da montanha têm produzido observações importantes, e será difícil convencer astrônomos a abrir mão de continuar observando os céus a partir de lá. Só que alguém vai ter de sair.

Para encerrar os protestos contra os telescópios, o governador do Havaí, David Ige, ajudou a articular um acordo de paz entre astrônomos e líderes espirituais. Segundo os termos anunciados na semana passada, a instalação do TMT fica garantida, mas pelo menos quatro telescópios de Mauna Kea deverão ser desativados até a inauguração do novo projeto, estimada para 2022. Com exceção do CSO (Caltech Submillimeter Observatory), que já tinha saída programada para 2016, ninguém se voluntariou. A negociação sobre quem vai para o sacrifício, pelo visto, não será fácil.

Entre outros projetos que estão lá se destacam o gigante Subaru, do Japão, o Gemini Norte, consórcio que tem participação do Brasil, e o CFHT, do Canadá e da França. É provável que os expulsos sejam os menores, como o telescópio de 2,2 da Universidade do Havaí, mas não está claro o que deverá acontecer depois. Além disso, nenhuma nova área de construção será concedida no local, o que torna o deserto do Atacama, no Chile, o único ponto do planeta com qualidade equiparável para instalar novos telescópios do porte do TMT.

Alguns astrônomos ficaram frustrados com a decisão sobre Mauna Kea, mas é difícil qualificar a demanda dos grupos religiosos havaianos como uma perseguição inquisitória à ciência. Ninguém ali está tentando impor uma crença obrigatória nem ameaçando mandar para a fogueira os que não professam a mitologia havaiana. Trata-se da reivindicação de um território que pertencia a povos tradicionais. O caráter espiritual de Mauna Kea sobreviveu às invasões francesa e inglesa no século 19, e é irônico que justamente agora, como unidade de conservação estadual, a montanha esteja cheia de gente.


O acordo anunciado pelo governo, além de estabelecer um calendário para a desativação de telescópios, exige que os visitantes da montanha, cientistas ou turistas, passem por treinamento cultural. Além de fazer um minicurso para aprender como lidar com o ar rarefeito e a radiação ultravioleta do local, quem quiser subir a montanha terá de aprender agora a se comportar com o devido respeito a Wakea, Poliahu e outras divindades locais. 

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Não existe almoço grátis

Imagine a seguinte cena: na hora do almoço, você passa na frente de um grande centro comercial, cheio de restaurantes. Ao lado deles, você vê de relance um estande com uma grande placa que diz "Dinheiro de graça".
Você passa mais perto para ver do que se trata e na frente do estande, vê uma placa menor com a indicação do valor disponível. Estudantes estão dentro do estande e no balcão está uma pilha de notas de dinheiro no valor estabelecido.
Se a expressão "de graça, até injeção na testa" fosse verdadeira em todos os momentos, as notas de dinheiro se acabariam logo. O processo seria todo tão rápido que as suas chances de chegar a tempo no estande seriam ínfimas. Provavelmente, você nem teria ficado sabendo que havia uma distribuição de notas de dinheiro de graça no seu percurso do almoço.
No entanto, algo não parece certo. Aqui parece reinar uma outra expressão, preferida por economistas, de que "não existe almoço grátis" (por sinal, apropriada para a ocasião). Estamos sempre certos de que existe alguma intenção escondida ou uma pegadinha pronta. Afinal, por que alguém distribuiria dinheiro de graça, sem ter nada em troca?
Neste caso, o motivo é simples: para estudar o nosso nível de desconfiança. Se você foi um dos que passou pelo estande que Dan Ariely, autor de "Previsivelmente Irracional" montou em uma manhã em um centro comercial em Cambridge, no Massachusetts, as chances de que você parou para pegar a sua nota de dinheiro gratuita são baixas.
Quando a placa dizia que você podia pegar uma nota de US$ 1, apenas 1% dos passantes foram buscar a sua. Conforme a oferta subia (para US$ 5, US$ 10, US$ 20), o número de pessoas que pegava uma aumentava, mas ainda assim, muito pouco. Mesmo quando ofereceram US$ 50, apenas 19% dos passantes parou para pegar uma nota.
"Claramente, a grande maioria acreditou que era algum tipo de truque de tal forma que não valia a pena nem perguntar", relata Ariely. Afinal, vemos tantos esquemas dúbios, empresas corruptas, ofertas enganosas e propagandas exageradas que somos todos muito desconfiados, até de quem não precisa.
O alto nível de desconfiança generalizada encontrado com este estudo revela um cenário grave, pois a confiança funciona como um "lubrificante" da economia, segundo Ariely: "quando as pessoas confiam umas nas outras, elas tendem mais a comprar, emprestar e conceder crédito". Sem confiança, temos mais dificuldade de acreditar em quem merece e até de se manter correto, em um mundo onde todos tentam tirar vantagem dos outros.


sábado, 16 de maio de 2015

Pedro, o lobo e as eternas reuniões

Quando me pedem uma análise rápida sobre cenário tucuju atual, as pessoas se assustam quando começo com a velha cantilena do Pedro e o lobo, para quem não conhece a historieta infantil de Sergei Prokofiev é muito simples explicar, já que Pedro sempre gritava a vinda de um suposto lobo que assustava todos ao seu redor e cada um corria para se abrigar do lobo feroz que no fim das quantas nunca aparecia. Talvez por tantos alarmes falsos Pedro tenha perdido a credibilidade perante os seus, e quando finalmente o lobo resolveu atacar e Pedro gritou sua vinda, ninguém mais acreditou e o resultado é que todo mundo foi parar na barriga do lobo.
Basicamente é assim o cenário atual, afinal todo mundo está sempre muito ocupado resolvendo coisas indizíveis naquelas eternas reuniões dos funcionários públicos em que sempre Pedro está gritando a vinda do lobo e sempre se orquestra uma reunião para falar de Deus ao diabo.
Ora bolas, reuniões devem ser esporádicas, emergenciais e/ou balancetes anuais. Há que se trabalhar. Para o povo. Murais, folhetos, folhetins, avisos, papéis – dezenas de milhares de reais gastos – internamente. Para que? Para um ficar sabendo da vida do outro colega? Reparem nisso. Em toda repartição pública você nota dezenas de murais, avisos, ordens, até compra e venda de imóveis. Tudo interno. Aniversário, casamentos, noivados, batizados...
Porém, o pior problema são os funcionários públicos de algumas repartições que, por ser palavra antiga, muito usada no filme “Carnaval na Atlântida”, com Oscarito e Grande Otelo, prefiro registrar, instituições públicas.
Dia inteiro em reuniões, cursos, debates internos, encontros, festividades internas... Tudo em nome da luta contra o câncer da mama, fuga de stress, integração emocional, luta contra a pressão arterial, contra o fumo, contra a depressão, cursos de informática, de liderança de grupo, de racionalização dos serviços e, pasmem, entre tantos outros milhares de encontros internos, a eficiência em atender ao cliente, ao público que paga de seu próprio bolso tudo isso!
E, justamente esse público é que fica sem atendimento. Valorizam o funcionário e se “esquecem” do público, a razão maior de tudo e que até, certa vez, o governo brasileiro criou um tal de “ministério da desburocratização” que foi um verdadeiro mistério...
Mudou tudo. Antigamente (adoro essa palavra) o cliente, o público era o alvo principal das instituições públicas. Hoje é o funcionário!
Você entra num banco. Cadê o gerente? Está em reunião sobre como atender bem o público! Portanto, o público fica mesmo sem atendimento!
Numa secretaria de Estado, cadê o secretário? Está em reunião. Nunca, em toda a minha vida, encontrei um secretário de Estado que não estivesse em reunião.
Só as telefonistas é que nunca estão reunidas. Antes de serem contratadas, recebem a ordem, por escrito, de falarem, primeiro, que o patrão não está. Depois de identificado, pede o seu telefone para retornar a ligação, e esta nunca retorna.
Até certo ponto acho correta esta última atitude pois é lamentável/paradoxal você se dirigir a algum órgão público e ficar horas a fio olhando a cara do funcionário com quem deseja orientar-se – às vezes apenas para saber onde fica determinada sessão – falando e atendendo as pessoas que ficam telefonando para ele. Até você se cansar, perder um tempão e ir para casa telefonar para ele, na certeza absoluta de que, pelo telefone será atendido!
Ou como faço e passo a ensinar meu público leitor. Sentado à frente do gerente que não para de atender ao telefone, ligo de meu celular para o telefone dele e faço a mais absoluta questão de, cara a cara, falar com ele pelo celular.
Mas talvez o mal maior destas intermináveis reuniões seja o fato de que quando o chefe maior pergunta como está sendo resolvida determinada situação, o “povo da reunião” sempre responda:  Está tudo a mil maravilhas!”.

Se você gestor ouvir isso de sua equipe, pode ter certeza de uma coisa: Pedro está gritando que o lobo vem e desta vez ele vem mesmo!

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Dolly, a precursora das ovelhas monocromáticas

Stálin era um visionário: na sua paranoia criminosa, ele conseguiu apagar de fotos "oficiais" os inimigos reais (ou imaginários) da sua estimável ditadura muitos anos antes do Photoshop ser inventado.

Mas não só: com igual engenho, ele próprio aparecia em fotos decisivas, sobretudo na companhia de Lênin, como forma de mostrar ao povo soviético quem era o verdadeiro herdeiro bolchevique (tradução: era ele, e não Trótski).

Passou quase um século. Mas a tentação de "apagar" o passado não larga certas cabeças com deficit de liberdade.

Um caso aparentemente menor mostra como: leio na virtualíssima "Slate" que Ben Affleck, um conhecido ator e "liberal" americano ("liberal" no sentido esquerdista do termo), pediu à PBS (televisão pública norte-americana) que um fato da sua família não fosse incluído no documentário "Finding Your Roots" ("encontrando suas raízes").

O referido documentário, da autoria de Henry Louis Gates Jr., procura revelar ao mundo quem eram os antepassados de várias figuras públicas. E um dos antepassados de Ben Affleck era ó miséria das misérias! Um proprietário de escravos.

Affleck, depois de um presumível achaque nervoso, pediu à PBS para apagar essa nódoa. A PBS, em grande gesto deontológico que só honra o jornalismo, concordou. Primeiro, porque o antepassado escravocrata de Affleck "não era má pessoa", disse o autor do programa (sem rir).

E, depois, porque Affleck tinha nomes mais interessantes no cardápio: generais, ativistas dos direitos humanos etc. que não comprometiam a canonização do ator. Para que sujar essa canonização com a ovelha negra, ou branca, da família?

O caso é primoroso porque mostra duas coisas sobre a cabeça de um ator que gosta de debitar grandes lições de moralidade sobre os outros mas que abomina os espelhos que tem em casa.

A primeira lição é a incorrigível ignorância que existe nessa cabeça: qualquer cidadão de um país com passado escravocrata pode ter antepassados pouco recomendáveis. Os Estados Unidos são um caso.

Portugal seria outro: nunca fiz uma história genealógica da família. Falta de interesse, de tempo, ou ambos. Mas não me espantaria que, nos séculos 16 ou 17, houvesse por lá um Borges qualquer que, depois de comprar escravos na África (normalmente de um vendedor negro, que os capturava nas profundezas da selva para os vender na costa), os transportasse depois para as plantações do Novo Mundo.

A ideia de que eu, nascido em 1970, sou responsável por eventuais crimes cometidos por antepassados 300 ou 400 anos atrás só faz sentido na cabeça analfabeta de Ben Affleck.

Confrontado com um antepassado escravocrata, bastava que Affleck usasse algum humor ("felizmente, não o conheci") para que o assunto ficasse encerrado.

Só que "humor" é palavra interdita para um moralista. E esta é a segunda lição: se o caso não servisse para fazer piada, Affleck poderia sempre pedir "perdão" pelos crimes alheios, mantendo o seu halo de santidade.

Essa atitude, aliás, tem sido moda no Ocidente desde que Bill Clinton pediu desculpa pela escravatura; Tony Blair pelas fomes da Irlanda no século 19; ou até João Paulo 2º pelas Cruzadas.

As consciências progressistas sempre aplaudiram essas expiações anacrônicas, talvez por imaginarem que, hoje, ano da graça de 2015, a nossa imaculada conduta jamais será reprovada por quem viver em 2215.

O problema é que, nos Estados Unidos, pedir desculpas não chega. E o milionário Ben Affleck poderia ser confrontado com a indústria das reparações, que nos últimos anos tem exigido quantias exorbitantes à República americana pelos crimes da escravatura.

Perante todos esses dilemas, o que fez Affleck? Simples: para proteger a hipocrisia da imagem (e o recheio da carteira), pediu o exato tipo de censura que ele é sempre o primeiro a condenar. E como sabemos disso?

Ironia final: porque o pedido de censura de Affleck foi revelado pelo WikiLeaks, essa nobre instituição que é o sonho úmido de qualquer "liberal" que se preze.

Não há maior escravidão que esta: sermos vítimas da nossa própria vaidade e estupidez.
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