sexta-feira, 15 de abril de 2016

Síndrome de Regina Duarte


Em minha juventude encontrei o País em distensão. Na aurora dos contagiantes anos oitenta, testemunhei as grandes manifestações pela redemocratização. A lembrança das “Diretas Já” me soa triste: na noite da derrota da emenda Dante de Oliveira, cheguei em casa e vi minha família apreensiva sem ainda conseguir perceber o curso poderoso das coisas para além de nossas vontades, aquilo que se costuma chamar o espírito do tempo. Eram tempos de abertura. Que tempos são os nossos, afinal?
Embora a Lei de Anistia resista e os agentes oficiais da repressão continuem impunes, a Comissão Nacional de Anistia, bem como as estaduais, tem feito nos últimos anos um trabalho incansável quanto ao resgate da significação do Estado de Exceção por meio das indenizações laborais e pedidos de perdão às vítimas. Entre 2012 e 2014, a Comissão Nacional da Verdade vasculhou os escombros da nação e trouxe à tona um extenso relatório com recomendações, sem a participação dos arquivos militares, que se recusaram a colaborar.  
Houve já quem dissesse que fazemos a história, sim, mas não do modo que queremos. Bingo. A passagem dos 50 anos da quartelada nem de longe significou uma apropriação simbólico-narrativa do País a respeito da recente violência de Estado. Bem ao contrário, poucos meses depois de apresentado o relatório final da referida comissão, vimos estupefatos pelas ruas pedidos de intervenção militar e o que antes era um envergonhado silêncio tornou-se um agressivo discurso que retoma a narrativa da “gloriosa” que livrou o País dos “comunistas”. E, pasmem, o governo é comunista e deu no que está dando!
Então, como um grito preso na garganta ecoa o reprimido brado retumbante, a par de todo o assombroso roteiro de deposição do governo legitimamente eleito, que vai do impeachment que também é um instrumento legal e constitucional, pode passar pela renúncia de Dilma e quiçá chegar à convocação de novas eleições.
O #NãoVaiTerGolpe avança finalmente como a dessublimação do “não houve golpe”, “não foi golpe, foi revolução” e congêneres. Nunca antes na história deste País, nem nos 50 anos de 64, o País assumiu tão desabridamente seu passado de golpe e ditadura.
A população, assim como a minha família na década de 80 às portas da redemocratização, acompanha incólume o desfecho do verdadeiro circo cujas lonas se levantam em pleno eixo monumental aguardando os circenses adentrarem ao picadeiro.

Resta saber quais serão as consequências disso tudo, afinal nos tempos de Collor, o povo ainda estava no ritmo pós ditadura e não sabia brigar. Lamentavelmente recordando os protestos recentes e a violência  aplicada neles dos dois lados contrários, realmente posso recordar Regina Duarte durante a campanha eleitoral de 1990: Tenho medo de Lula, tenho medo do PT e da capacidade de mobilizar o caos, quer esteja no poder ou brigando por ele!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Todos os homens da presidente

A batalha segue acirrada entre os dois exércitos arregimentados por fiéis à Dilma que prometem fazer até chover no sertão no caso de uma perda do governo e os correligionários do PMDB que apostam todas as fichas: limpas e tisnadas num eventual governo de Michel Temer.
Para o vice-presidente, resta a tarefa de manter-se no cargo o que segundo os especialistas de plantão afirmam – é jogo ganho – afinal o TSE dificilmente cassará Temer, mesmo com uma ação do PSDB tentando impugnar a chapa toda e fazer uma limpeza completa no Alvorada e no Jaburu.
A delação premiada da Andrade Gutierrez fortalece o pedido de impeachment, porque atinge diretamente a campanha de Dilma Rousseff, mas também tem potencial para pegá-lo indiretamente no tribunal.
Partindo desse princípio fica cada vez mais clara a posição do PMDB já que com o afastamento de Temer da presidência do partido e Romero Jucá já agenciando cargos como um croupier recolhendo apostas para próximo Derby é bem provável que os arranjos concretizem o grande medo de Dilma no tão famigerado "Golpe” que ela tanto propaga em qualquer oportunidade de discursar, até em aniversário de cachorro a presidente tenta incluir o tema nas preleções.
Na parte do meio deste campo de guerra, escondidos sob toneladas de aterro em trincheiras improvisadas; estão os indecisos que temem se agasalhar em um lado supondo que se perderem entram para a lista negra de Lula. Entre eles está o saltitante deputado Júlio César, do PSD do Piauí, decidiu ficar em Brasília neste fim de semana para ler o relatório de Jovair Arantes e decidir como votará no impeachment.
Temendo serem incluídos no rol de persona non grata elaborado por Lula enquanto este caminha entre terras hostis em busca de fieis para manter o PT no governo nem que seja na bala, os indecisos tentam a todo custo fugir da companhia do ex-presidente, algo que parece ser dificultoso quando se conhece o que Lula tem oferecido nesses encontros.
Observadores afirmam que Lula anda com um saco de bondades que o Planalto lhe colocou nas mãos a distribuir em barganhas a liberação de emendas parlamentares, com o propósito de impedir a aprovação do processo de impeachment. Caso seja pilhado no ato fica configurada a prática dos crimes de corrupção e prevaricação para juntar as muitas das acusações que pesam sobre ele.
No placar que parece mudar a cada segundo como uma tela da bolsa de valores em tempos de crise e incertezas, agora temos um saldo de 284 votos a favor do impeachment e 114 contra e já há 111 inscrições de deputados que querem falar na comissão do impeachment antes da votação do relatório de Jovair Arantes: 70 defenderão a saída de Dilma e 41 a permanência dela. Levando em conta apenas o tempo regimental, os discursos durarão 27 horas ininterruptas. Isso sem contar os que se inscreveram duas vezes, uma contra e outra a favor de Dilma.

Na sentença do único aliado que resta ao governo, o presidente do senado Renan Calheiros, que já reconhece em alto e bom tom que se o impeachment passar na Câmara, não há como barrar no Senado, não há nada que ele nem Lula nem mesmo o padroeiro das lamentações impossíveis possam fazer quanto ao resultado de o Brasil ter mais um presidente impitimado por atos nada republicanos. Devemos rir para não chorar!

Dois Josés

O destino de José Sarney teve uma drástica mudança em um fatídico 21 de abril, quando soube que se tornaria o primeiro presidente civil após um regime militar que durou duas décadas em um Brasil que clamava por mudanças.
O presidente Sarney; como costuma ser chamado até os dias de hoje em seus ciclos políticos e de amizade, representou um divisor de águas neste período, afinal saíamos de um nebuloso momento de nossa história sob o manto da intolerância para finalmente rumarmos a um processo democrático cujo bâtonnier Tancredo Neves, o destino fê-lo retirar-se mais cedo, cabendo a Sarney a condução do País durante a transição.
Os caminhos da nova república foram bastante sinuosos, afinal, antes de 1985, o restante do Brasil que quase não conhecia aquele maranhense com talento impar para a politica - já que o Maranhão assim como a maioria dos estados do Norte e do Nordeste pareciam ser alijados do cerne das questões decisórias do Brasil - mas Sarney, que já tinha uma trajetória vigorosa em seu estado natal de onde foi deputado, senador da República e governador encontrou o clímax de sua vida de serviços prestados ao País naquela Brasília de 1985.
Mesmo assim na fórmula da tentativa e erro, diversos planos econômicos nunca testados, das famosas “fiscais do Sarney”, do tabelamento e congelamento de preços, a história é testemunha do cômputo de significativos avanços em quase todos os setores da administração pública que impactaram direta ou indiretamente em benefício da sociedade durante sua gestão como presidente da República.
Como por exemplo, em 1988. Aquele foi um ano histórico para muitos; foi o ano do orgulho da raça negra que comemorava o centenário da abolição da escravatura no Brasil. E também o ano da promulgação da Constituição Cidadã, erguida por Ulysses Guimarães como um marco na história politica do país concedendo as liberdades e garantias individuais e coletivas para a sociedade.
Tecer loas à sua longevidade como politico ou como pessoa, não é reconhecimento digno até por que os brios de vaidade não lhe cabem. Grandes foram as empreitadas realizadas por Sarney durante este mais de meio século de vida pública que não se encerrou após sua passagem pela presidência do Brasil. Eis que na continuidade de sua carreira, os caminhos do Amapá e de José Sarney se cruzaram em uma relação de afeto que já chega a um quarto de século, 24 deles como Senador da República.
Um estado jovem e um politico experiente, uma junção cujo resultado não poderia ser diferente: Uma terra no extremo norte do país, esta terra de São José que encontrou um outro José para lhe dar amparo e transformá-la em uma terra de oportunidades, em um pedaço do Brasil que tantos brasileiros não conhecem ou só conheciam pelos livros.

Eis aqui um compêndio do que os anos produtivos da vida pública renderam aos brasileiros e em particular ao Amapá, terra adotiva deste José Maranhense, que como muitos brasileiros vieram para cá para desbravar um Brasil que o Brasil ainda não conhecia, mas que com certeza despontou aos olhos de nossa nação após a passagem deste grande brasileiro.

*Editorial para a Revista Personalidades, abril de 2016

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Em barco que explode todo mundo afunda


Uma novidade no Brasil atual é que pela primeira vez desde o desembarque de Tomé de Souza, em 1549, o braço do Estado está investigando, encarcerando e punindo personagens de uma secular oligarquia política e econômica desta terra de Santa Cruz. Diante dessa novidade, Os personagens centrais são explosivos asteriscos. Em graus variáveis, estão mais próximos do problema do que de sua solução.
O processo de Impeachment, Dilma Rousseff, Michel Temer e Eduardo Cunha e até Lula são ingredientes secundários de um momento muito maior. Vice-presidente de olho na cadeira da titular é coisa comum. Oposição querendo derrubar o governo também é coisa que acontece sempre, quase corriqueira.
O STF investiga os presidentes da Câmara e do Senado. Foram parar na cadeia o dono da maior empreiteira do país, um poderoso banqueiro e o líder do governo no Senado. Dois ex-diretores da Petrobras fizeram a limpa com delações premiadas. E vários são os já sentenciados pela corte de Curitiba.
Neste momento impar, foram presas as pessoas que se comportavam como se estivessem em tempos nababos e que se achando os sobas desqualificavam a Operação Lava-Jato, mas acabaram se dando conta de que a festa acabou e passaram a colaborar com o Ministério Público.
Uma parte do Ministério Público e do Judiciário dissociou-se de uma secular tradição que protegia os maus costumes das oligarquias política e econômica (mas não na sua totalidade).
De um lado do ringue está a doutora Dilma que não respeita delatores desde os tempos do VAR-Palmares; eleita por um partido que teve dois presidentes e dois tesoureiros no xilindró. Do outro, Cunha, líder de uma poderosa bancada pluripartidária, apanhado com uma fortuna escondida no banco Julius Baer.
Os petistas dizem-se perseguidos, mas, entre os 68 políticos investigados, seu partido está empatado com o PMDB (ambos com 12 notáveis). A taça ficou com o Partido Progressista, que pelo jeito progrediu muito, com 31 acusados. O PP tem uma peculiaridade: abriga um plantel de doutores cujas raízes remontam ao tempo da ditadura.
Símbolo máximo e decano dessa grei é Paulo Maluf. Olhando-se para as empreiteiras que tiveram executivos encarcerados chega-se a empresas poderosas desde a metade do século passado.
Ferida, a oligarquia está atemorizada. É comum ouvir-se a pergunta: “Onde é que isso vai parar?” Em geral, ela significa outra coisa: “Será que vai chegar a mim?” Também é frequente a advertência: na Itália, a Operação Mãos Limpas desaguou em nove anos de poder de Silvio Berlusconi com suas bandalheiras.
Novamente, a frase tem outro significado: “É melhor deixar tudo como está.” A Mãos Limpas italiana obrigou a oligarquia italiana a mudar de modos. Berlusconi perdeu os direitos políticos e a batalha para não pagar na cadeia os 11 anos a que está condenado. Matteo Renzi, o atual primeiro-ministro da Itália, não tem as ligações perigosas dos cardeais da extinta democracia cristã, nem as traficâncias da última geração de políticos socialistas. A “Mani Pulite” não transformou a Itália numa Nova Zelândia, mas tornou mais arriscado o ofício de roubar.

Com isso, Dilma pode ou não continuar na Presidência. Mas, para a oligarquia ameaçada, isso não tem importância. O que se precisa é quebrar os ossos de parte do Ministério Público e de parte do Judiciário. E isso sim, está cada vez mais difícil.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Não fui eu, foi o homem sem braço

A máxima do título precavem o leitor das agruras pelas quais passou o doutor Richard Kimble do folhetim “O Fugitivo” o qual Harrison Ford protagonizou na década de 90 e que conta a história de um médico acusado de matar a mulher, e contra todas as provas e argumentos que diziam, era inocente.

Já nem tão semelhante ao caso da ficção americana, temos Lula, que tem passado as agruras de chegar tão perto da barra da toga do juiz Sérgio Moro, tentando explicar de todas as formas possíveis não ser dono do apartamento tríplex no condomínio Solaris, o que tudo leva a crer que foi uma forma de compensação da empreiteira OAS para dar um agradinho ao ex-presidente que já não se vangloria de ser a pessoa mais honesta na face da terra.

Embora o Instituto Lula publique em seu site reproduções de documentos que negam a posse do polêmico apartamento no condomínio Solaris, no Guarujá, a Luiz Inácio Lula “Honesto” da Silva e sua família. A entidade, presidida por Paulo Okamotto, confirmou que o ex-presidente esteve na unidade 164-A, um triplex de 215 m², em uma "única ocasião", em 2014, acompanhado da mulher, Marisa Letícia, e de José Adelmário Pinheiro, o Léo Pinheiro, sócio da OAS.

Lula e Marisa foram intimados na semana passada a depor no próximo dia 17 como investigados em inquérito do Ministério Público Estadual que apura oito empreendimentos da Cooperativa Habitacional dos Bancários do Estado de São Paulo (Bancoop) assumidos pela OAS, alvo da Lava-Jato por formação de cartel na Petrobras entre 2004 e 2014. Um desses empreendimentos é o condomínio Solaris — também alvo da Operação Triplo X, a 22ª fase da operação.

Em revolta Lula “O Honesto” chama de "levianas" acusações de ocultação de patrimônio, mesmo tendo visitado ele e sua esposa, as obras do apartamento, como se fiscais de obras fossem, já que a pergunta seria: o que faziam lá senão tem ligação como imóvel? Caridade para o CREA?

Desde que surgiram suspeitas na relação do triplex “sem dono” com a família Lula, o instituto do ex-presidente vinha divulgando notas afirmando que o petista e sua família nunca adquiriram o apartamento em si, mas uma cota-parte da Bancoop para aquisição de um imóvel no edifício, e que, posteriormente, desistiram da compra.

O promotor Cássio Conserino afirmou que viu incoerência nas informações apresentadas. E o Ministério Público paulista, avalia que as informações corroboram os indícios de tentativa de ocultação de patrimônio.

Para servir de linha de frente na defesa de seu patrono, o Instituto Lula, que ao que parece só tem uma finalidade: defender o próprio Lula! Lançou seus papelórios, os chamados: "Documentos do Guarujá: desmontando a farsa", afirmando que a família do ex-presidente desistiu no ano passado da opção de compra do tríplex 164-A no condomínio Solaris "mesmo tendo sido realizadas reformas e modificações no imóvel (que naturalmente seriam incorporadas ao valor final da compra)", por causa de "notícias infundadas, boatos e ilações que romperam a privacidade necessária ao uso familiar do apartamento". A reforma no imóvel de 215 m², contratada pela empreiteira OAS, custou R$ 777 mil.

O texto, compartilhado neste domingo pela página do instituto no Facebook, afirma que "adversários de Lula e sua imprensa tentam criar um escândalo a partir de invencionices".

A entidade voltou a criticar a decisão do promotor de intimar Lula e sua mulher a depor como investigados. "Além de infundada, a acusação leviana do promotor desrespeitou todos os procedimentos do Ministério Público, pois Lula e Marisa sequer tinham sido ouvidos no processo."

Devaneios a parte, Lula parece ter cometido um erro crasso ao testar a paciência do Ministério Público com a demagógica declaração de que “não há nem um ser vivo no Brasil e no Mundo mais honesto que ele”. Algo que agora parece ser uma questão de honra, não mais só para a oposição, mas para o pacote inteiro que foi citado ser menos honesto que Lula, “o sem tríplex”.

Aguardemos o desfecho desta novela, afinal Richard Kimble era inocente ao final de tudo o homem sem braço tinha realmente matado sua mulher em uma trama rocambolesca. Mas no caso de Lula “o honesto sem teto”, o revés parece ser bem menos emocionante do que a trama do cinema, já que Sergio Moro e o Procurador Cássio Conserino não lembram nenhum pouco Tommy Lee Jones, o algoz de Kimble.





sábado, 12 de dezembro de 2015

Falta de parlamentares e índios de verdade

Em 116 anos desde a proclamação da República o Brasil só teve um parlamentar indígena: Mario Juruna. Desde então nunca mais foi “Dia do Índio” no parlamento, mas os “caciques” continuam por lá em pé de guerra.

Juruna que no finzinho da década de 70 se tornara conhecido por empunhar um gravador onde registrava as falsas promessas feitas por altos funcionários do governo.  Dizia: “homem branco mente muito!”. E com o passar dos anos parece que a coisa não mudou nada, afinal todos os dias vemos os parlamentos, não só do Congresso Nacional, mas dos estaduais, a exemplo do nosso Amapá, em ações nada republicanas.

Amiúde, as coisas não têm mudado muito de lá pra cá, parlamentares enchem de vergonha os eleitores que lhes confiaram seu bem democrático mais precioso: o voto. E a retribuição vem em forma de “mensalão”, “mensalinho”, “jaraquis” e “jabás”, acompanhados de toda a sorte de balangandãs ligados à má versação do erário divulgados amplamente na mídia.

No caso de Juruna em sua pudica inocência, até que incomodou tanto que acabou eleito deputado federal pelo PDT de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola, com mais de 30 mil votos, nas eleições de 1982.

Estando no Congresso; tentaram de todo o jeito ridicularizá-lo e de transformá-lo num bufão. Jô Soares, em seu programa humorístico na Globo, logo criou um índio que mal sabia falar o português para que os telespectadores rissem dele. O general João Baptista de Figueiredo, último presidente militar, foi o primeiro a rosnar contra Juruna, dizendo que o Rio de Janeiro só tinha eleito “índios e cantores de rádio”.

Juruna reagia: “Quem não tem consciência, me trata como objeto, me trata como boneca. E quando eu passo aqui dentro de plenário e alguns companheiros à frente de mim e diz cara emburrada é ridículo. Eu não vim aqui fuxicar com ninguém, eu vim aqui pra trabalhar, pra defender povo, eu vim aqui pra lutar. Eu quero que gente começa a respeitar nome de Juruna”.

Mas não deu outra, o brasileiro não leva a sério quem não tem cara de europeu e fica bem de terno e gravata. Com isso o líder xavante que fora convencido a entrar na política por Darcy Ribeiro, que denunciou a campanha contra o índio-deputado feita sobretudo pela imprensa que achava mais bonito o biótipo do politico empertigado do que do índio parlamentar.

Com certa dose de inocência por não saber como as mazelas do parlamento conseguem enodoar o coração de um homem, Juruna foi massacrado por tentar ser um parlamentar dentro que aquilo que se espera eticamente do cargo. A oposição era tão escancarada que até a imprensa mais respeitável do país (à época), a exemplo do Jornal do Brasil, mantiveram durante anos, uma campanha sistemática de desinformação contra o deputado Mário Juruna, através dos procedimentos mais antiéticos, indignos da sua tradição jornalística.

No dia da sua posse como deputado, em março de 1983, Juruna foi aplaudidíssimo, mais até que Ulysses Guimarães. Decidido a só fazer seu primeiro discurso no Dia do Índio, resolveu falar uns dias antes apenas para reclamar das alfinetadas de Figueiredo. “Estou muito revoltado. Este presidente da República tem que fazer serviço para garantir emprego ao povo brasileiro e não para fazer campanha de calúnia contra as pessoas. Eu sou contra a repressão, contra a violência e também contra a mentira e a sujeira. O presidente não pode falar besteira, que é contra a eleição, que é contra mim, o governo federal quer ganhar eleições em todos os Estados do Brasil, mas ele não vai ganhar a consciência do povo, do homem carecido. O presidente não pode meter o pau em nenhum companheiro, em nenhum deputado. Ele que salve o Brasil”.

No dia 19 de abril, como prometido, subiu à tribuna e voltou à carga, valente, criticando os ministros do governo militar e pedindo sua demissão. Em setembro de 1983, iria além e chamaria os ministros de ladrões. “Todo ministro é a mesma panelinha, é a mesma cabeça. Não tem ministro nenhum que presta. Pra mim todo ministro é corrupto, ladrão, sem vergonha e mau caráter. Não vou dizer que todo ministro é bom, legal e justo. Vou dizer que todo ministro é do mesmo saco que aproveita o suor do povo trabalhador”.


Figueiredo, furioso, chegou a pedir a cassação de Juruna, mas o deputado acabou recebendo apenas uma censura por parte da Mesa. Em 1985, Mário Juruna denunciaria a tentativa de Paulo Maluf de comprar seu voto no colégio eleitoral. Devolveu o dinheiro e votou em Tancredo Neves. Desgostoso com a política após não conseguir se reeleger em 1986, Juruna morreu em 2002, vítima de diabetes. O único índio deputado morreu pobre e esquecido, mas não se vendeu!

Eufemismos de um discurso roto

Eu particularmente acho hipocrisia bancar o bolchevique e viver da sinecura pública como se isso fosse a coisa mais tolerável possível. Mas quando se trata da “new left” ou “esquerda caviar”, ou qualquer eufemismo mais apropriado que se possa utilizar nesses tempos em que ninguém mais sabe o que é oposição ou situação, direita ou esquerda.... Chega mais uma modalidade das muitas façanhas da dita esquerda.

Em uma dessas cenas pitorescas de pose extremista, vê-se como exemplo o esvaziamento do Psol no Amapá. Claro que tudo bem medido e bem pesado já que as ditas “estrelas” que um dia balançaram a bandeira rubra da estrela azarada resolveram aderir a outras constelações, se é que isso pode ser um eufemismo galáctico.

Todavia podemos analisar uns fragmentos da “carta testamento” que o único senador do PSol deixou para seus não tão desconsolados confrades, que pareceram até comemorar bem mais do que carpir a saída do ex-psolista que agora se embala na Rede.

O tal fragmento carregado de eufemismos, parece fazer da figura de linguagem um meio de dizer sem dizer que entre tapas e beijos o partido não sentirá falta de seu ex-filiado, assim como o mesmo parece não ter muita estima pelo que se passou e saudades também não parece sentir, visto que o desabafo quando desnudado das antíteses se torna um verbo não muito polido.

Quando diz que “A partir de hoje deixo de ser um filiado e passo a ser um amigo do partido”. Amigo? De quem mesmo? Pois as alas mais conservadoras nunca viram com bons olhos a associação com os democratas na politica do “fazer para ganhar”. Apenas toleraram até certo ponto da manifestação solitária e velada.

“No entanto, o ambiente político exige uma maior capacidade de articulação política”. Ou seja, depois de dez anos finalmente abriram-lhe os olhos de que seu partido nativo não tinha capacidade de articular absolutamente nada? Chega a ser um contraste gritante com todos os holofotes acesos na tentativa de articular.

“Exige amplitude, exige multiplicidade de relações (...)”. Algo que já era uma realidade de longa data, a capacidade de procurar objetivos cujas relações eram contraproducentes à filosofia que se construiu em cima do partido que deveria ser avesso a tudo o que se pregava na politica vigente do primeiro mandado do PT a frente do Planalto. Mas que na verdade ficou tudo igual, mudou-se apenas a sigla, os maus costumes perduraram.

“(...) para que se construam organizações políticas capazes de atrair jovens, intelectuais, artistas, membros do movimento social, ativistas, militantes das redes sociais”. Surpreendente ver que uma afirmação dessas recai sobre um partido que vive imiscuído entre a juventude, artistas, (BBB também conta!), ativistas e militantes de redes sociais, e de repente foi classificado como obtuso e obsoleto, quase um PDS!

“(...) e todos aqueles que possam abraçar uma agenda comum em defesa do desenvolvimento soberano e sustentável e da superação das desigualdades econômicas e sociais”. Enfim chegamos ao ápice em que o partido que serviu de abrigo e trincheira para amealhar destaque como esquerda, já não tem mais propósito para combater as desigualdades sociais.

O longo discurso enfadonho similar ao de Fidel em seus tempos de tribuna. É o mesmo discursos de esquerda, que manifesta-se contra tudo em tempos em que não se tem mais aqueles cartazes e panfletos com “Fora FHC” ou “Fora FMI”. Já que a esquerda tomou conta do executivo nacional, fornicou e proliferou como larvas no esterco e no fim das quantas e tantas, acabou no mesmo balaio que tanto condenou em discursos e protestos.


No final de tudo é isso que conta, o imediatismo do discurso em detrimento ao que realmente importaria: O Povo! Que pena, mas George Orwell sempre esteve coberto de razão quando deu na telha de dizer que os bichos fazem exatamente as mesmas coisas, sejam; cães, gado, galinha e até mesmo porcos. Independente da espécie, no final da tudo na mesma, só mudam os eufemismos...
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...