terça-feira, 10 de maio de 2016

Brasileiro sim, subversivo, nunca mais

A crise político-econômica do país pode ter consequências ainda mais profundas, devido ao acirramento dos discursos dos governistas e da oposição, que têm revelado um lado violento nos embates e discussões. Observamos assustadora mudança cultural dos brasileiros, cuja índole solidária, pluralista e serena, presente inclusive em numerosas eleições e momentos de intenso debate partidário-ideológico, está sendo substituída rapidamente pela intolerância e truculência.
O direito de opinar está sendo patrulhado nas redes sociais e se convertendo em objeto de intimidação das pessoas. No Congresso Nacional, nas empresas e nas redes sociais, não faltam histórias e casos de agressão verbais e até físicas, envolvendo indivíduos que se dizem comprometidos com a ética e a democracia. Aqui no Amapá, nem se fale no número de casos, até eu já entrei no balaio.
De um lado, vemos uma minguada base aliada do governo, que defende ferrenhamente o mandato da presidente Dilma Rousseff. De outro, uma oposição renovada, que ganha forças com o impeachment. Porém, o debate político, de ambos as partes, transcende ao espírito republicano, revestindo-se de exagerada agressividade e agressões morais e físicas. Muito preocupante é como a população está cada vez mais contaminada por esse embate truculento, que não interessa à democracia e muito menos à sociedade.
A política pode até mesmo ser paixão, pois isso é inerente ao ser humano. Porém, não pode fomentar o ódio. Na fronteira entre os dois sentimentos, nota-se preocupante mudança de um paradigma cultural dos brasileiros. As sessões do Legislativo lembram as brigas de torcidas organizadas. Nas redes sociais, o debate democrático deu lugar à barbárie, com trocas de ofensas pessoais, insultos e ameaças. Veem-se pessoas que justificam o emprego da tortura (um crime no Brasil!), pedem a volta da ditadura militar, fazem apologia ao estupro como prática educativa e defendem que o adversário deveria ser exterminado (genocídio?).
Segundo uma pesquisa recente, uma em cada cinco pessoas diminui seu contato com amigos na vida real devido a brigas nas redes sociais. E 19% dos 2.698 entrevistados admitiram ter bloqueado ou cancelado amizades por causa de discussões virtuais. É triste constatar que a violência tomou o lugar do uso da razão e que a intolerância com quem pensa diferente transforma amigos e parentes em inimigos e colegas de trabalho em adversários.
Estamos na contramão da história, já que, desde o final da Segunda Guerra Mundial, o mundo organiza-se para a construção da paz. O Brasil sempre teve papel importante na mediação de acordos multilaterais, exatamente devido à vocação de nosso povo e governantes para o diálogo. Talvez tenhamos esquecido de que fazemos parte de uma nação e queremos que ela supere suas dificuldades, para que todos nós, brasileiros e estrangeiros que aqui vivemos, tenhamos vida digna e progresso social e harmonia.
O debate político e o contraste das ideias e ideologias são enriquecedores e contribuem para o fortalecimento da democracia. Porém, digladiando-se com crescente agressividade, os políticos têm dado um mau exemplo. Eles deveriam cumprir melhor o papel de mediadores das relações entre o Estado e a sociedade e guardiões dos princípios republicanos, postura básica de quem recebe um mandato público.

É premente pacificar os ânimos. O PIB, os empregos e os investimentos voltarão a crescer, pois toda crise tem fim, afinal "Não há mal que sempre dure, nem bem que se não acabe", escreveu Gabriel Garcia Marques em “Cem anos de solidão”. No entanto, será muito difícil reverter a ruptura em curso no grau de tolerância dos brasileiros. Precisamos reaprender a conviver com as diferenças sem cair na subversão.

quarta-feira, 4 de maio de 2016

Empreendedor ou sobrevivente?

Com o anuncio recente feito pelo IBGE de que 10,2% dos trabalhadores estão fora do Mercado em função da instabilidade econômica e política que só tem feito mal ao país criando esta bola de neve crescente de desemprego de 10,4 milhões de pessoas. Para ‘driblar a crise’, muitas pessoas estão buscando alternativas para a geração de receita no empreendedorismo como solução viável ao cenário atual.

Segundo informações do Governo Federal, anualmente o Brasil ganha cerca de 600 mil novos negócios. Além disso, existem em torno de 1,5 milhão de microempreendedores individuais. Em valores absolutos, o País está apenas atrás da China, no número total de empreendedores, ou seja, 21,1 milhões.

Mas isso não necessariamente se reflete em um índice de sucesso garantido para os que almejam serem donos de seu próprio negócio, pois, embora seja uma alternativa viável, construir um novo negócio é tarefa árdua que envolve uma série de questões legais, tributárias e financeiras e acima de tudo: a capacidade de fazer o negócio “acontecer”.

O início de uma atividade empreendedora não é fácil, pois, além de necessitar de investimentos de tempo e dinheiro, esbarra em questões culturais e mercadológicas, como baixa rentabilidade do empreendedor, conhecimento do mercado, viabilidade do negócio e aceitação do público, dentre outros fatores que podem fazer uma receita de sucesso dar lugar a um convite ao fracasso em outro.

Fatores como a instabilidade da moeda e um mercado afetado por rupturas conjecturais e políticas, oscilação do preço dos produtos e serviços, estimulados pela inflação, prejudicam a lucratividade do empresário, desestimulando os futuros empreendedores na busca de estratégias que viabilizem seus negócios.
No entanto, a crise vivenciada nos últimos anos fez florescer o desejo e o espírito empreendedor de parte da população, principalmente pelo grande índice de desemprego que assola o país e a necessidade de sobrevivência.

Por isso, a máxima para sobrevivência de qualquer negócio, principalmente em períodos de crise, é a busca frenética de uma atitude empreendedora que visem a excelência, fazendo do insucesso um aprendizado para a melhoria contínua, sustentação e vida do negócio.

Algo que não deve ser ignorado no portfólio do negócio são as análises do cenário e do mercado escolhido para empreender, para que o empreendedor possa traçar um plano de negócios estruturado com base no seu capital real (de no mínimo três meses) para que possa arcar com as despesas fixas, evitando gastos desnecessários na abertura do novo negócio.

Dentre as inúmeras atitudes empreendedoras que o futuro empresário deve ter em mente, a maioria delas se consegue através de uma boa orientação profissional como o Sebrae ou consultores empresariais e contábeis. Fazer isso sozinho é um risco desnecessário.

Ser empreendedor é ser um sonhador, é buscar, por meio do seu trabalho e muitas vezes teimosia, a satisfação do desafio de sustentar um negócio. É uma mudança de paradigma. Infelizmente, nem todos têm um espírito empreendedor e acabam desenvolvendo negócios de sobrevivência duvidosa e que inicialmente parecem ser excepcionais, mas que, no decorrer do caminho, apresentam fragilidades, como falta de capital de giro e clientela, lucro baixo ou prejuízo, levando o investidor à falência.

Esses são os riscos do mundo dos negócios, mas que graças a um longo aprendizado deixado por nossos antecessores que desbravaram o mercado voraz, permitiram que um negócio que se faz de maneira estruturada, com mapeamento, estudos, análises e aprendizados que possam assegurar a sua subsistência, está sempre no caminho certo para que o empreendedor não se torne mais uma estatística ruim no mundo empresarial.

quinta-feira, 28 de abril de 2016

Será que o MST sabe cuidar da terra?

Vendo os bloqueios nas estradas Brasil adentro, com queima de pneus e protestos pró-Dilma e contra um suposto golpe que estaria acontecendo com a conivência do legislativo e judiciário, o MST levantou uma questão séria sobre os rumos da terra no Brasil.

Mais recentemente na história do Amapá, vimos que a presidente Dilma repassou as antigas terras da União para o domínio do estado do Amapá, isso prova que a União através da Presidência da República tem total autonomia para gerir o destino das terras no Brasil.

Mas aí vem a questão sobre o MST. Afinal Lula esteve no comando do país por dois mandatos, Dilma emenda a dinastia petista com mais um mandato e meio o que já dá quase quinze anos de poder de mando do partido das estrelas. Mas não se viu em nenhum momento nenhuma politica de reforma agrária digna de ser alardeada pela mídia como foi o “Bolsa Família” ou o “Minha Casa, Minha Vida”, por exemplo.

Mas ao ver tal comoção do MST nas ruas defendendo se possível com violência a permanência de Dilma e do PT a frente do destino do País, vale se perguntar: O que ganhou o MST para isso? Reforma Agrária? Lotes do Incra? Programa de desapropriação de terras devolutas ou de latifúndios não utilizados para a agricultura ou pecuária?

A resposta é o mais imenso vazio fundiário que se possa pensar, afinal nada aconteceu, mas mesmo assim quando se procura nos meios oficiais o que vem a ser o MST, vê-se a pomposa descrição que o cientista social Paulo Silvino Ribeiro fez para o “Brasil Escola” ensinar nossas crianças: “O Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) é um dos mais importantes movimentos sociais do Brasil, tendo como foco as questões do trabalhador do campo, principalmente no tocante à luta pela reforma agrária brasileira.”

É assim que se define o MST nos livros de geografia espalhados pelas escolas públicas, como um bastião da luta pelo movimento agrário, não como um braço armado e imputável de um partido politico que em vez de lutar por reforma, como é auto definido didaticamente, luta por um partido, mas a troco de que afinal?

Questiono-me que se por um passe de mágica houvesse uma megapolitica de reforma agrária no Brasil e de repente, não mais que de repente, todos os membros do MST inclusive João Pedro Stédile e José Rainha ganhassem o seu tão sonhado pedaço de chão, já que há décadas estes dois senhores ainda não conseguiram a terrinha prometida.

Teria a massa que queima pneus, fecha estradas, invade fazendas produtivas, mata gado para promover churrascadas, derrubam árvores e saqueia plantações, a capacidade de arar e semear a terra? Ou de fazer pastar seu próprio gado?

Minha mãe já dizia que a prática sempre leva ao conhecimento e que se você arar a terra terá calos nas mãos, mas saberá a hora certa de plantar feijão. Mas os membros politizados do MST que estão há tanto tempo longe dos campos, militando por Lula, por Dilma, ou quem sabe até, se o mensalão fosse um conto da carochinha, não estivesses levantando bandeiras vermelhas com a inscrição “Zé Dirceu” saberiam realmente o valor da terra?

Parece ser uma incógnita insolúvel, digna dos anais da matemática do calculo diferencial, uma resposta abstrata que faz refletir que se um movimento que reivindica terras fica ao lado de um partido que está há tantos anos no poder e não deu se quer um palmo de chão, é por que com certeza dessa semente não sai nada além de mais uma bandeira que tremula sem propósito e que nem verde nem amarela é, e Deus nos livre que seja regada com, sangue se a dinastia “trabalhadora” for defenestrada do Plano Piloto.

segunda-feira, 25 de abril de 2016

Comunicação só para inglês ver

Após os vexatórios discursos ao estilo “Xou da Xuxa” que foram proferidos por mais de seis horas no Congresso Nacional durante a votação do Impeachment no domingo passado, uma pergunta fica no ar: Será que os políticos que gastam tanto em comunicação sabem mesmo se comunicar?

Os discursos bem provincianos que vimos mostram realmente o contrário, e um outro fato também importante é que além de terem uma péssima comunicação, nossos representantes no Congresso parecem viver em um mundo onde o tempo parou, ou eles mesmo não acompanham as evoluções que o tempo trouxe.

Na internet, por exemplo, onde as noticias correm em tempo real e cada ser humano com um tablete, notebook ou smartphone tornou-se um repórter-cidadão, é difícil crer que num universo de 513 indivíduos, somente uns dois ou três se destaquem mostrando-se conectados ao mundo da informação.

Em uma breve pesquisa nos sites e redes sociais de todos e a conclusão não poderia ser mais espantosa: estão completamente deslocados no uso da tecnologia e na condução da comunicação, apesar das despesas com a comunicação das suas atividades parlamentares não serem nada franciscanas.

Sendo mais claro, para que serve a internet, no caso de um político ou uma figura pública? Serve para comunicar, levar a mensagem a toda e qualquer pessoa interessada pelo político, projetos, atuação e temas coincidentes.

As pessoas querem saber basicamente três coisas: quem é o político, como pensa e o que está fazendo em defesa do seu eleitorado. Na parte do “quem é” os quatro se mostram distantes do que vem a ser uma comunicação digital. Romário, Bolsonaro e Wyllys têm, em seus sites, páginas biográficas, todas escritas em terceira pessoa. ACM nem chega a tanto: seu site, indicado na sua página no Facebook, está fora do ar.

No quesito “como pensa”, também não há surpresa. A maioria se resume a não opinar sobre temas importantes, como violência doméstica, modelo educacional, legalização do aborto ou qualquer outro assunto que possa desagradar determinado público. Em compensação, há muitas frases de efeito e fotos de agenda.

Nenhum dos sites visitados mostrou com clareza a atividade do político de forma organizada e segmentada, por tipo de ação ou grupo beneficiado. Logo, se o visitante tem interesse em uma área qualquer, como educação ou segurança pública, não encontra uma forma rápida de chegar ao conteúdo.

Do ponto de vista tecnológico, qualquer um dos quatro exemplos é uma abominação. O eleitor só chegará a um deles caso digite seu nome, o que é prova do uso inadequado da tecnologia.

Como exemplo, faça buscas no Google com “direitos de pessoas com deficiência”, “deficiência intelectual” ou qualquer outra variável e tente encontrar o site do Romário, um dos maiores defensores da causa. Fui até a décima página de resultados sem nenhuma menção ao trabalho do parlamentar. Na prática, isso significa que quem foi beneficiado pelo trabalho acaba não tendo a conexão com os políticos envolvidos.

Esse problema acontece por dois motivos: falta de compreensão da equipe que atualiza os canais do candidato e plataformas desenvolvidas sem políticas para mecanismos de busca. Fora a questão da “encontrabilidade”, há também a da usabilidade. Nenhum dos sites mostrou serem adequados para quem está visitando a partir de um celular, que hoje representa a maior porta de entrada para o uso da internet.

Para muitos políticos, a vida digital resume-se a redes sociais, mais precisamente Facebook, Twitter e Instagram. O que é um equívoco gigantesco quando o assunto são canais de comunicação. Redes sociais funcionam basicamente como divulgação em rádio, jornal e televisão, tendo reverberação momentânea e, geralmente, patrocinada. Cerca de dois ou três dias depois que um conteúdo é disseminado no Facebook, o mesmo perde sua serventia.

O caminho para a presença constante dá-se por meio dos sites, que na grande maioria dos casos, por falta de visão de longo prazo, são considerados dispensáveis.

Sites bem construídos e atualizados com profissionalismo servem de âncoras para toda a presença digital de um político. O site é o lugar para aprofundar discursos, publicar conteúdos que possam ser encontrados, coletar dados dos simpatizantes para contato posterior e combater ameaças.

Como se tudo o que coloquei acima fosse pouco, há ainda a proibição legal para investimento publicitário em período eleitoral, ou seja, quando o político mais precisa expandir seu discurso, suas redes sociais serão praticamente inúteis, dadas as políticas que reduzem a exposição dos conteúdos sem que sejam patrocinados.
A falta de interesse em conhecer como as coisas funcionam na web poderá custar muito caro aos políticos brasileiros. Pelo menos nos bolsos do contribuinte isso já custa caro faz um bom tempo!

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Síndrome de Regina Duarte


Em minha juventude encontrei o País em distensão. Na aurora dos contagiantes anos oitenta, testemunhei as grandes manifestações pela redemocratização. A lembrança das “Diretas Já” me soa triste: na noite da derrota da emenda Dante de Oliveira, cheguei em casa e vi minha família apreensiva sem ainda conseguir perceber o curso poderoso das coisas para além de nossas vontades, aquilo que se costuma chamar o espírito do tempo. Eram tempos de abertura. Que tempos são os nossos, afinal?
Embora a Lei de Anistia resista e os agentes oficiais da repressão continuem impunes, a Comissão Nacional de Anistia, bem como as estaduais, tem feito nos últimos anos um trabalho incansável quanto ao resgate da significação do Estado de Exceção por meio das indenizações laborais e pedidos de perdão às vítimas. Entre 2012 e 2014, a Comissão Nacional da Verdade vasculhou os escombros da nação e trouxe à tona um extenso relatório com recomendações, sem a participação dos arquivos militares, que se recusaram a colaborar.  
Houve já quem dissesse que fazemos a história, sim, mas não do modo que queremos. Bingo. A passagem dos 50 anos da quartelada nem de longe significou uma apropriação simbólico-narrativa do País a respeito da recente violência de Estado. Bem ao contrário, poucos meses depois de apresentado o relatório final da referida comissão, vimos estupefatos pelas ruas pedidos de intervenção militar e o que antes era um envergonhado silêncio tornou-se um agressivo discurso que retoma a narrativa da “gloriosa” que livrou o País dos “comunistas”. E, pasmem, o governo é comunista e deu no que está dando!
Então, como um grito preso na garganta ecoa o reprimido brado retumbante, a par de todo o assombroso roteiro de deposição do governo legitimamente eleito, que vai do impeachment que também é um instrumento legal e constitucional, pode passar pela renúncia de Dilma e quiçá chegar à convocação de novas eleições.
O #NãoVaiTerGolpe avança finalmente como a dessublimação do “não houve golpe”, “não foi golpe, foi revolução” e congêneres. Nunca antes na história deste País, nem nos 50 anos de 64, o País assumiu tão desabridamente seu passado de golpe e ditadura.
A população, assim como a minha família na década de 80 às portas da redemocratização, acompanha incólume o desfecho do verdadeiro circo cujas lonas se levantam em pleno eixo monumental aguardando os circenses adentrarem ao picadeiro.

Resta saber quais serão as consequências disso tudo, afinal nos tempos de Collor, o povo ainda estava no ritmo pós ditadura e não sabia brigar. Lamentavelmente recordando os protestos recentes e a violência  aplicada neles dos dois lados contrários, realmente posso recordar Regina Duarte durante a campanha eleitoral de 1990: Tenho medo de Lula, tenho medo do PT e da capacidade de mobilizar o caos, quer esteja no poder ou brigando por ele!

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Todos os homens da presidente

A batalha segue acirrada entre os dois exércitos arregimentados por fiéis à Dilma que prometem fazer até chover no sertão no caso de uma perda do governo e os correligionários do PMDB que apostam todas as fichas: limpas e tisnadas num eventual governo de Michel Temer.
Para o vice-presidente, resta a tarefa de manter-se no cargo o que segundo os especialistas de plantão afirmam – é jogo ganho – afinal o TSE dificilmente cassará Temer, mesmo com uma ação do PSDB tentando impugnar a chapa toda e fazer uma limpeza completa no Alvorada e no Jaburu.
A delação premiada da Andrade Gutierrez fortalece o pedido de impeachment, porque atinge diretamente a campanha de Dilma Rousseff, mas também tem potencial para pegá-lo indiretamente no tribunal.
Partindo desse princípio fica cada vez mais clara a posição do PMDB já que com o afastamento de Temer da presidência do partido e Romero Jucá já agenciando cargos como um croupier recolhendo apostas para próximo Derby é bem provável que os arranjos concretizem o grande medo de Dilma no tão famigerado "Golpe” que ela tanto propaga em qualquer oportunidade de discursar, até em aniversário de cachorro a presidente tenta incluir o tema nas preleções.
Na parte do meio deste campo de guerra, escondidos sob toneladas de aterro em trincheiras improvisadas; estão os indecisos que temem se agasalhar em um lado supondo que se perderem entram para a lista negra de Lula. Entre eles está o saltitante deputado Júlio César, do PSD do Piauí, decidiu ficar em Brasília neste fim de semana para ler o relatório de Jovair Arantes e decidir como votará no impeachment.
Temendo serem incluídos no rol de persona non grata elaborado por Lula enquanto este caminha entre terras hostis em busca de fieis para manter o PT no governo nem que seja na bala, os indecisos tentam a todo custo fugir da companhia do ex-presidente, algo que parece ser dificultoso quando se conhece o que Lula tem oferecido nesses encontros.
Observadores afirmam que Lula anda com um saco de bondades que o Planalto lhe colocou nas mãos a distribuir em barganhas a liberação de emendas parlamentares, com o propósito de impedir a aprovação do processo de impeachment. Caso seja pilhado no ato fica configurada a prática dos crimes de corrupção e prevaricação para juntar as muitas das acusações que pesam sobre ele.
No placar que parece mudar a cada segundo como uma tela da bolsa de valores em tempos de crise e incertezas, agora temos um saldo de 284 votos a favor do impeachment e 114 contra e já há 111 inscrições de deputados que querem falar na comissão do impeachment antes da votação do relatório de Jovair Arantes: 70 defenderão a saída de Dilma e 41 a permanência dela. Levando em conta apenas o tempo regimental, os discursos durarão 27 horas ininterruptas. Isso sem contar os que se inscreveram duas vezes, uma contra e outra a favor de Dilma.

Na sentença do único aliado que resta ao governo, o presidente do senado Renan Calheiros, que já reconhece em alto e bom tom que se o impeachment passar na Câmara, não há como barrar no Senado, não há nada que ele nem Lula nem mesmo o padroeiro das lamentações impossíveis possam fazer quanto ao resultado de o Brasil ter mais um presidente impitimado por atos nada republicanos. Devemos rir para não chorar!

Dois Josés

O destino de José Sarney teve uma drástica mudança em um fatídico 21 de abril, quando soube que se tornaria o primeiro presidente civil após um regime militar que durou duas décadas em um Brasil que clamava por mudanças.
O presidente Sarney; como costuma ser chamado até os dias de hoje em seus ciclos políticos e de amizade, representou um divisor de águas neste período, afinal saíamos de um nebuloso momento de nossa história sob o manto da intolerância para finalmente rumarmos a um processo democrático cujo bâtonnier Tancredo Neves, o destino fê-lo retirar-se mais cedo, cabendo a Sarney a condução do País durante a transição.
Os caminhos da nova república foram bastante sinuosos, afinal, antes de 1985, o restante do Brasil que quase não conhecia aquele maranhense com talento impar para a politica - já que o Maranhão assim como a maioria dos estados do Norte e do Nordeste pareciam ser alijados do cerne das questões decisórias do Brasil - mas Sarney, que já tinha uma trajetória vigorosa em seu estado natal de onde foi deputado, senador da República e governador encontrou o clímax de sua vida de serviços prestados ao País naquela Brasília de 1985.
Mesmo assim na fórmula da tentativa e erro, diversos planos econômicos nunca testados, das famosas “fiscais do Sarney”, do tabelamento e congelamento de preços, a história é testemunha do cômputo de significativos avanços em quase todos os setores da administração pública que impactaram direta ou indiretamente em benefício da sociedade durante sua gestão como presidente da República.
Como por exemplo, em 1988. Aquele foi um ano histórico para muitos; foi o ano do orgulho da raça negra que comemorava o centenário da abolição da escravatura no Brasil. E também o ano da promulgação da Constituição Cidadã, erguida por Ulysses Guimarães como um marco na história politica do país concedendo as liberdades e garantias individuais e coletivas para a sociedade.
Tecer loas à sua longevidade como politico ou como pessoa, não é reconhecimento digno até por que os brios de vaidade não lhe cabem. Grandes foram as empreitadas realizadas por Sarney durante este mais de meio século de vida pública que não se encerrou após sua passagem pela presidência do Brasil. Eis que na continuidade de sua carreira, os caminhos do Amapá e de José Sarney se cruzaram em uma relação de afeto que já chega a um quarto de século, 24 deles como Senador da República.
Um estado jovem e um politico experiente, uma junção cujo resultado não poderia ser diferente: Uma terra no extremo norte do país, esta terra de São José que encontrou um outro José para lhe dar amparo e transformá-la em uma terra de oportunidades, em um pedaço do Brasil que tantos brasileiros não conhecem ou só conheciam pelos livros.

Eis aqui um compêndio do que os anos produtivos da vida pública renderam aos brasileiros e em particular ao Amapá, terra adotiva deste José Maranhense, que como muitos brasileiros vieram para cá para desbravar um Brasil que o Brasil ainda não conhecia, mas que com certeza despontou aos olhos de nossa nação após a passagem deste grande brasileiro.

*Editorial para a Revista Personalidades, abril de 2016
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