domingo, 17 de junho de 2012

A via dolorosa do diploma estrangeiro


Recentemente a Assembleia Legislativa realizou uma audiência pública que culminou com o Projeto de Lei 0160/11 que visa garantir a admissão e promoção de professores que detém o título de mestrado ou de doutorado em Portugal ou MERCOSUL no quadro do Estado.

Esta luta muito antiga pela desburocratização do processo de revalidação ou reconhecimento do diploma estrangeiro no Brasil ainda parece demorar mais se em Brasília, via Ministério da Educação não forem feitas as devidas alterações nos termos draconianos das resoluções do CNE/CES que regulamentam, tornando longo e burocrático o processo de revalidação de diplomas de graduação e pós-graduações, sejam elas lato ou stricto sensu feitas no exterior.

Existe uma diferença entre reconhecer um curso de graduação e um de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado). No primeiro caso, o processo pode ser um pouco mais complicado, rigoroso, demorado e o pior de tudo, sem garantias de que a resposta será positiva. O segundo também é longo, mas as chances de ser aceito são bem maiores.

Nas graduações o processo de revalidação é realizado por qualquer universidade pública brasileira que ministre o mesmo curso de graduação realizado no exterior (na mesma área de conhecimento ou em áreas afins). Por isso, antes de viajar de “mala e cuia”, é importante que o estudante avalie a grade curricular do curso estrangeiro que escolheu e compare com os conteúdos ministrados pelas universidades públicas reconhecidas pelo MEC (disciplinas e principalmente carga horária). Isso ajudará a futura revalidação, pois é muito difícil que a universidade simplesmente aceite o diploma estrangeiro sem solicitar que o aluno curse algumas disciplinas e realize provas e exames, com o objetivo de caracterizar a equivalência, verificar os conhecimentos ou simplesmente complementar a formação.

Antes de voltar ao Brasil de vez, tenha em mãos além do diploma, a grade curricular do curso com a descrição de todas as matérias e as respectivas cargas horárias que você cursou o histórico, as notas e todo documento que julgar importante. Para que estes documentos tenham efeito no Brasil, eles devem estar devidamente legalizados pelas autoridades estrangeiras, e isso nada mais é que outro processo burocrático de reconhecimento de firmas (lembre-se: este processo garante que seus documentos não são falsos e que foram expedidos por uma Universidade reconhecida).

Ou seja, todos os documentos devem ser oficiais e assinados por alguma autoridade da universidade. Provavelmente estes documentos também terão que ser enviados a alguma outra autoridade do país estrangeiro (seja o Ministério de Educação ou de Assuntos Exteriores, cada país tem um procedimento distinto) para o reconhecimento das assinaturas. 

Como o Brasil não assinou o convênio de Haia (que permite a reciprocidade entre documentos oficiais emitidos em diversos países) os documentos depois de reconhecidas as firmas devem ser enviados ao Consulado Oficial do Brasil no país em questão para finalmente terminar o processo de legalização.

Terminados os procedimentos no exterior, pode-se dar inicio ao processo de reconhecimento no Brasil, dando entrada no Departamento de Relações Internacionais de uma universidade pública reconhecida pelo MEC. Cada universidade tem autonomia para realizar o seu protocolo de revalidação, mas normalmente os documentos solicitados são bastante parecidos e é necessário o pagamento de certas taxas, além da tradução juramentada dos documentos.

Nas pós-graduações a revalidação é bem menos problemática, complexa e demorada, já que normalmente os cursos são bastante específicos e geram uma dissertação ou tese mais fácil e rápida de ser avaliada.

Mas nem por isso a burocracia é menor. O processo é praticamente o mesmo: para facilitar o processo de revalidação a maioria das universidades brasileiras pede uma cópia da dissertação ou da tese na língua original do país onde foi cursada a pós-graduação. Mas Tenha sempre em conta que cada universidade tem autonomia no processo, ou seja, pode decidir documentação oficial a ser entregue, as taxas, os prazos, comissões…

A ideia de realizar um curso que não existe no Brasil pode ser tentadora em um primeiro momento, mas lembre-se que logo se não existem profissionais capacitados aqui para dizer se o seu diploma é válido ou não, ele não será revalidado.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Utile et Dulce


A inscrição em latim, gravada na mente dos que buscam uma útil e agradável, mobilizadora e prazerosa parceria, talvez tenha sido a ultima expressão que vague nas cabeças dos pré-candidatos a prefeitura de Macapá que neste interim parece mais o Sertão do Seridó que é uma vastidão de terra que fica encravada no ponto mais distante do Estado do Rio grande do Norte, lá, depois de onde acaba a sorte e começa o sofrimento.

Lá o sertanejo é amoroso, sonhador, forte e persistente. Mais ou menos como o amapaense, mas pode ter um ou outro que destoa dos outros, mas são só alguns. Só não se é feliz. Afinal viver sob uma inconstante parece ser a sina de ambos os povos, de lá e cá. Essa semelhança de Macapá do Seridó, digo, com Seridó me faz lembrar as memorias do sertão de padre Ciço e Lampião, mais ou menos isso.

Corria o ano de 1938. “Perigo” era o nome do cachorro de estimação de Severino. Chamar de cachorro de estimação talvez seja consideração demais para com o bicho, mais justo seria dizer cão de serventia, pois era um cachorro para todas as lides, desde tanger o gado (quando havia gado para tanger), vigiar a casa ou aquilo que se podia chamar de casa: uma velha tapera feita a sopapo, na beira da estrada de um lugar onde, quando chovia, formava-se um açude. Perigo também servia para brincar com as crianças, além de ajudar na caça. Aliás, era bom de caça. Da Codorna a Perdiz, passando pelo Gavião e pela Saracura, Gambá e o que mais fosse bom para comer naqueles tempos de seca inclemente. Realmente Perigo personifica quem apoia e ainda acredita no apoiado.

Severino era um homem do sertão, pele curtida no sol do Seridó brasileiro, olhar doce e coração duro. Muito mais pela intempérie que pela natureza, Severino aprendeu a ser frio, lógico e pertinaz. Não era malvado, era razoável. Para sobreviver naqueles tempos, tinha que ter fibra e coragem e ser bom sem ser bobo, ser sabido sem ter letra. Era assim no sertão, onde um homem morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte e de fome antes de ser homem, como já dizia João Cabral de Melo Neto, de Morte e Vida Severina. João mais me lembra o apoiado, que estende a mão da ajuda, mas que na hora da partilha do pão, finge que não há mais pão.

Mas em 38 a seca foi braba. Primeiro, migraram os mais afoitos, depois os menos pacientes, depois os outros também se foram. Ficaram os teimosos. Severino era um destes. Com seu cachorro Perigo, Severino disputou com o Carcará cada broto que nascia, cada bicho que voava; cada presa que corria. Saiam para caçar, toda tardinha, até que foram cada dia mais longe, até as barras da Serra do Navio.

Muitos bichos foram caçados pela espingarda certeira de Severino, graças ao faro infalível do Perigo, que desentocava o bicho, estaqueava e chamava o dono para atirar. Era tiro e queda. No fim do dia, para voltar para o Seridó, Perigo rondava Severino fazendo festa, latindo e pedindo agrado. Severino estava orgulhoso: ninguém havia matado tanta caça quanto ele. E Perigo ali, enchendo a paciência, atrasando a viagem. “Passa cachorro!”

Chegado em casa, ou aquilo que se podia chamar de casa, Perigo foi para debaixo do arbusto que resistia à seca terrível, dormiu feito criança, acordou um pouquinho antes da noite chegar, faminto e faceiro. Severino estava limpando os bichos e olhando para o horizonte, vendo o sol se por atrás da barra. Perigo sentiu-se no direito de fazer uma “boquinha”, comeu um bicho, e dos limpinhos, prontos para salgar. Severino enlouqueceu, pegou a espingarda e atirou certeiro. Matou o Perigo, cão vira-lata, ladrão e vadio. Sem serventia.

Severino, depois disto, comeu a caça e refestelou-se. Muito depois soube-se que ele também perdera a teimosia e era agora mais um retirante fugindo da seca. Sentia saudades do Sertão do Seridó, de Perigo nem se lembrava mais. Enfim é o que vem por ai, uma ingratidão braba!


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Brincando no quintal dos médicos


As relações entre médicos e o governo do estado tem se tornado cada vez mais desgastadas e caminham para um sentido quase sem sentido. Mas afinal todo mundo sabia que seriam tempos difíceis e que não se teria um instante de paz e de proveito nos próximos 1460 dias subsequentes a que se concedeu mandato aos que já haviam sido exilados do poder.

Hoje a revolta dos médicos faz paridade às reclamações de muitos trabalhadores que tem gritado e não têm sido ouvidos nem pelo governo, e ao que parece, nem pela opinião pública. Sendo que a segunda tem poder de revolta entendido, pois é a principal interessada e usuária do serviço público de saúde que constantemente entra na UTI e quando parece dar sinais de melhora, vai à coma novamente.

Uma bela manhã de sol em vez de se preocupar em resolver problemas delegando e agilizando ações, o governo resolveu adotar a mania de controle sobre os plantões médicos, sendo esta uma categoria importante, pois tem o domínio sobre as ações da vida e da morte sobre nossas relações harmônicas.

A politica adotada foi mexer em vespeiro, já que as relações trabalhistas referentes a essa atividade plantonista não tem nenhum instrumento contratual que efetive esta relação, logo aos olhos da lei elas inexistem. Afinal o vínculo se estabelece pelo cargo concursado, mas não pela ação dos plantões. A não ser que se queira tornar o juramento de Hipócrates um contrato formal de trabalho.

Falando com conhecimento de causa, pois a maioria da população desconhece o índice de stress contido em um plantão na emergência, da pressão por que passa um residente de PS. Afinal significa muitas vezes significa ir para a guerra levando ao invés de uma arma apropriada, as mãos nuas isso quando os médicos tem que entrar no seu plantão desprovidos se quer de instrumentos básicos, que se não levar os seus; não tem.

Nos meus anos de juventude mais proeminente fiz a escolha da família que queria ter um representante dos que se vestem de frasco de leite de coco, pois como minha mãe já dizia é sempre bom ter um médico e um padre na família, afinal nunca se sabe quando se vai precisar. Graças a Deus não me servi a nenhuma das causas.

Muitas das vezes se diz que médico ganha bem que vive nadando em rios de dinheiro, que sua vida é um mar de rosas. Erro crasso que já começa no traje que deixou ha muito o jaleco branco glamoroso para dar ao lugar à calça e camisa verde abacate com leite.

O erro seguinte é sobre a remuneração médica ser milionária, ledo engano para quem desconhece os percalços e custos para galgar passo a passo desde o processo vestibular até o fim da residência.  Frente a um cargo eletivo em que a única prerrogativa que exige é saber ler e escrever, um médico tem a responsabilidade sobre a vida e muitas das vezes não lhe concede o direito de escolher sobre quem vai ou sobre quem fica.

Afinal, médico tem que fazer escolhas difíceis, mas ao contrario do que se pensa ou sobre a fala errática de Jung sobre alguns médicos terem “complexo de Deus” digo que não procede, caso contrario teria seguido carreira como um deles e não tendo me desvirtuado para o engendro das fórmulas da química.

Mas enquanto se brinca de gato e rato, a saúde e a vida tomam suas próprias decisões, mesmo que autônomas aos desígnios do governador ou das negativas dos médicos em terem pagamento de seus plantões desatrelados da data de seus vencimentos.

Decisão infeliz e prova robusta de que nas mãos de ineptos o poder ao invés de um fardo ou uma dádiva é apenas um brinquedo que as crianças levam para o quintal e se divertem com fantasias, bem ao modelo dos backyardgans que imaginam um mundo inteiro de maravilhas no fundo do quintal.

Pena que os médicos não são fantasias, a crise na saúde não é uma ilusão ou argumento fantasioso da oposição e a população não pode ressuscitar no final do episódio como acontecem nas histórias.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Madama das Contradições


Experimente chamar a polícia para alguma coisa; ao ver o carro estacionado na frente da tua casa, geralmente os vizinhos pensarão ‘o que fulano fez’. Aqui impera a cultura do ‘culpado até prova em contrário’, quando, na verdade, deveria imperar o ‘in dúbio pro réu’.

Na esteira desse pensamento, o público; que não entende nada de direitos fundamentais (até mesmo porque não interessa a ninguém ensiná-los, pois isso tornaria mais difícil a violação deles), ao ver as execrações públicas que ocorrem quase que diariamente, pensa-se logo com a linha de sentença: é culpado!

Uma pessoa ou instituição despida de seus direitos, com base em uma leitura errática ou dúbia da lei, ou até mesmo proposital comete o ilícito pelo qual se pressupõe investigar.

A imagem do direito é maculada por estes que fingem ser guardiães das portas da casa da dama cega. Mas que promovem todos os estratagemas para violar a honra, arranhar a imagem e como se tal não bastasse, ainda tornar público a milhões de pessoas todo o constrangimento direcionado por qual se passou com o único fim de derrotar, de desarticular e julgar seus desafetos pelas mãos da tal justiça limpa.

E o público acha isso absolutamente ‘natural’. Não, não é. Ainda que se tivesse cometido algum ilícito, isso não destituiria ninguém de seus direitos, que são imprescritíveis e irrevogáveis. Nosso sistema jurídico é totalmente subordinado à Constituição e se funda no respeito à dignidade humana.

Esse comportamento, que poderia ser compreendido (não desculpado), se adotado por leigos, é inadmissível e indesculpável quando quem o adota é uma autoridade. Isso abre sérios precedentes para um momento de nossa história em que todos os direitos e garantias do cidadão foram sequestrados em prol de um inimigo invisível.

Para o exercício das vertentes do direito é exigido o conhecimento do direito; cuja formação exige o conhecimento aprofundado da Lei, no mínimo isso. Afinal ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei: nada no ordenamento jurídico autoriza que se opere de qualquer forma em busca de provas. Nada nem ninguém é obrigado a obedecer a ordem manifestadamente ilegal: como a ordem para despir-se de seus direitos tão amplamente suados na conquista.

Lembrando a lição de Celso Antonio Bandeira de Mello (in ‘Discricionariedade e controle jurisdicional’, Ed. Malheiros, 13ª edição, pg.13):

“… enquanto o particular pode fazer tudo àquilo que não lhe é proibido, estando em vigor, portanto o princípio geral de liberdade, a Administração só pode fazer o que lhe é permitido. Logo, a relação existente entre um indivíduo e a lei, é meramente uma relação de não contradição, enquanto que a relação existente entre a Administração e a lei, é não apenas uma relação de não contradição, mas também é uma relação de subsunção...”

Parafraseando Forrest Gump: Isso é tudo o que eu tenho a dizer sobre isso.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O Maquiavélico Tucujú


Não é possível falar de contendas e meandros políticos sem citar Maquiavel que afirmava que o príncipe deve aprender a ser raposa e leão, mas nunca cordeiro. É curiosa a associação que o literato faz com a animalidade. Efetivamente, o simbolismo desses animais é bastante rico e enseja um sem-número de questões. Poderíamos, por exemplo, encaminhar esta análise para identificar a posição do Príncipe entre os seres metamórficos amapaenses.

Um destes seres é o mestre das metamorfoses, capaz de assumir toda e qualquer forma a hora que quiser, seja a de vítima, de opositor, de ignorante (não ofensivo) ou de sumidade. O nosso metamorfo politico é capaz de, pela sua metamorfose, enganar a quase todos que tem olhos destreinados às suas artes circenses e dos sortilégios obsoletos.

Seu poder repousa nas incontáveis formas que ele pode assumir. Ele tanto chega quanto desaparece de repente; ele apanha inesperadamente, e somente se deixa apanhar de modo a poder escapar. O meio essencial com que controla seus feitos espantosos é sempre a metamorfose.

Um poder real, o mestre das metamorfoses alcança na qualidade de xamã, invocando os poderes da floresta em seu proveito próprio. Em sua sessão, ele invoca espíritos aos quais submete; fala-lhes a língua das matas, transforma-se num deles e é capaz de, à maneira deles, dar-lhes ordens. Transforma-se em pássaro ao empreender sua viagem pelo céu e voar para longe das tormentas para fingir ação.

Na qualidade de animal marítimo, desce ao fundo do mar para fugir do mergulho de lama. Tudo lhe é possível, afinal detém um cheque em branco endossado pelo povo que o acreditou um ser metafísico. Seu paroxismo resulta da sucessão intensa e veloz de mais metamorfoses que o chacoalham até que, dentre elas, ele tenha escolhido aquela de que verdadeiramente necessita para seus propósitos.

O mestre das metamorfoses é aquele capaz das mais numerosas metamorfoses; se comparado à figura do rei sagrado e de mártir imolado que faz questão de apregoar. Sempre pregando um milagre inexistente, mas mesmo com as sucessivas metamorfoses continua com a essência sempre idêntica a si mesmo, fazendo com que ninguém possa aproximar-se dele ou mesmo, em muitos casos, olhá-lo, para que não se perceba suas imperfeições dicotômicas.

Este mítico ser, embora propagandeie um caráter estático, nada mais é do que um grande imbróglio á sua arte escura de metamorfosear-se, finge-se articulador do bem comum embora dele partam incessantes ordens a metamorfosear os outros, penetrou na essência do poder, para executar suas ações e acender fogos de artifício com elas.

Pensa fortemente que sua “divindade” não lhe permite descer de sua altura, ir ao encontro das pessoas; mas decerto pode elevar os outros, nomeando-os para este ou aquele posto. Pode transformá-los, elevando-os ou rebaixando-os de acordo com sua vontade ou grau de veneração que lhe dão.

Triste olhar por esta luneta mágica, que não pode ser socializada com os demais membros da população, pois para que isso ocorra se deve barrar os plenos poderes desse “rei” que tem como seu princípio básico; afastar a posse da visão límpida, dessa luneta mágica que faria com que todos os vissem despido desses sortilégios. A educação! Que tem sido meta do “rei” fazê-la nunca chegar a todos. Assim o “rei” nunca ficará nu.

sexta-feira, 25 de maio de 2012

Roma, Hermanos e os Tucujús



A guarda pessoal e a devoção ao agraciado protegido, é um fenômeno histórico que com graça tem Roma e os pretorianos de Cesar como seu expoente mais ferrenho, com a diferença é que o imperador romano era tido como deus na terra, herança da natureza de o ser humano ter uma divindade com poderes titânicos e superiores aos pobres mortais.


Isso não impediu que muitos líderes incluindo o próprio Cesar dos Césares, Júlio Cesar de ser apunhalado literalmente dentro de seu senado por seus próprios senadores que acharam que isso era para o bem de Roma e para o próprio bem de seus agraciados pescoços.

Cristina Kirchner também tem tido seu momento Cesar, mas não sob a louvação da SPQR mas sim pelos seus próprios correligionários comandados pelo rebento da presidente, Máximo Kirchner, que detém o comando do grupo de jovens devotos de La Cámpora.

Para manter esta pequena milícia Cristina é claro loteou diversos cargos para os camporistas dentro do governo e nas empresas estatais, como a Aerolíneas Argentinas e da agencia estatal de comunicação Telám. Assim como as cadeiras camporistas dentro do próprio congresso argentino ajudam nas decisões mais radicais da presidente.

Como prova disso, as ações de Cristina em “benefício” de seu povo, tentando um discurso peronista fadado ao fracasso, resolveu reencarnar as ações do cocaleiro Evo Morales que num ímpeto nacionalista factoide foi à boca da fronteira e expropriou o que encontrou pela frente incluindo nossa Petrobrás, sob o olhar de Lula que agiu como o pai que vê o filho defecar no tapete da sala e diz com ternura: _ Que bonitinho!

A Espanha fez que fez e bateu o pé contra a decisão de Cristina, apoiada pela sua milícia, de expropriar a YPF. Como não se tem politica, se faz com militância legislativa, afinal foi assim que Hitler conseguiu aos poucos a maioria no congresso, para que o partido Nazista forçasse o presidente Hindenburg a lhe abrir os caminhos para chegar a onde chegou.

Mas la Càmpora não tem dedicado seu tempo a apoiar e aprovar a politica econômica e as ideologias de Cristina, mas no cerco à liberdade de imprensa. Prova disso foi a lei que, pasmem, tornou o papel jornal, item de interesse público, sujeito a controle do estado assim como o papel moeda.

Essa história é velha conhecida dos argentinos, já que o grande Perón também não era chegado a uma critica jornalística, que quando não rebatia veladamente através de seu séquito militar, o fazia diminuindo a importação de papel jornal para a Argentina. Fazendo assim com que os jornais opositores saíssem mirradinhos, alguns com quatro paginas apenas e pouco espaço para exposição de muitos problemas.

Em rebate, já que não se vive mais a era Perón. Jornais como Clarín e La Nación, os maiores da Argentina, aumentaram suas reservas de papel, ironicamente combustível em duplo sentido ao fogo que promete se alastrar nos próximos meses.

Ao que parece, Cesar não tinha estes problemas, pois em Roma os arautos desapareciam misteriosamente sem aviso prévio quando algo desagradava os imperiais e divinos ouvidos do imperador. Na argentina os Hermanos podem padecer por falta de noticia impressa e papel para uso em higiene sanitária, o que deve ser uma pena, já que o papel que os colocou nessa lastimável situação, foi o da cédula de votação.

E infelizmente no Amapá, parece que a imprensa tem papel (em duplo sentido), tem noticia, o governo tem Cesar e tem pretorianos dispostos a manchar as folhas de jornal com sangue se preciso for, para proteger a divindade passageira pela qual se ajoelham para agradecer as benesses materiais do pão de cada dia.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

E na França havia fifi...


Não entendo esse frisson todo em cima da chegada de François Hollande à presidência da França. Afinal o governo deve se alternar em comando, por ideologias e partidos. Isso é saudável, me recorda até mesmo Eça de Queiroz quando diz que fraldas e políticos devem ser trocados constantemente pelo mesmo motivo. Vejo como uma mudança salutar a saída de Nicolas Sarkozy do poder após um mandato meio truculento e cheio de altos e baixos durante os cinco anos em que dormiu no Eliseu.

Sarkozy prometeu uma nova França, apesar de ser uma promessa bem difícil de cumprir, pois apesar da bimilenar existência a França não vive nas trevas e nem necessita de modernismos que não os que já passaram por lá desde a queda da Bastilha. O resto mostra que a França já viu mais ou menos tudo o que poderia ser visto, sem novidades, como a descoberta da pólvora proposta pelo marido de Carla Bruni.

Muito nos ensina que nestas promessas de mudança, feitas aqui no reino tucujú ou na elitista França, o resultado final mostra que as coisas continuam muito parecidas com as de anos atrás, nem bom, nem ruim e nem o milagroso futuro dourado. E ao que tudo indica tanto o Amapá quanto a França vão continuar incólumes a promessas feitas em pré e pós eleições.


Mas o que me surpreende é que após as eleições, mesmo depois da luta ferrenha entre direita e esquerda, na segunda feira pela manhã tanto a França quanto o Amapá continuavam os mesmos da véspera. Nenhum cogumelo nuclear, nenhuma virulência e nem mesmo uma praga bíblica para dar vazão às previsões do fim dos mundos; franco e tucuju.

Vivi na França de François Mitterrand e de Jacques Chirac, até respirei o ar impregnado do socialismo de proveta regurgitado por Lionel Jospin, assim como também sobrevivi ao governo de pai e agora filho da dinastia Capiberibe. O suficiente para ver e ouvir a mesma cantilena que os políticos dizem sobre o que a mídia querer explicar como o mundo deve funcionar, tentando mostrar a verdade da razão assim como tentar adivinhar o próximo realinhamento planetário, para no fim de tudo demonizar a imprensa.

Vi a politica segregacionista e xenófoba de Sarkozy de perto e com a mesma credulidade com que vejo as pregações apocalípticas de Hollande ou os lamentos do Jovem Capiberibe sobre um estado devastado e estéril que insiste em sonhar com a ponte milagrosa sobre o rio Oiapoque. 

Comparar os dois reinos é quase uma heresia de minha parte, afinal na França os problemas são bem mais cosmopolitas do que os nossos bucólicos problemas domésticos tucujus. Mesmo com a crise europeia, a França ainda é um dos países mais bem sucedidos do mundo. Enquanto nós protegemos nossos cordões e carteiras, os franceses mal sabem o que é um assalto á mão armada ou um arrastão de rua.

Dentre as condições de infraestrutura da qual desfrutam os mais de 65 milhões de franceses, estão um PIB per capta maior que 40 mil dólares por ano. Os transportes estruturados, que não deixam passageiros abandonados pelas paradas inexistentes ou que os proprietários de veículos não fazem ideia do que seja uma cratera viária nos mais de onze mil quilômetros de estradas francesas.

Com um aproveitamento produtivo inegável, soube usar com eficiência o espaço para produção em um território 94% menor que o disponível pelos brasileiros. E enquanto nos batemos por um aumento de 5 ou 7 % em nossos parcos R$ 622 de salário mínimo as classes que dependem desse provento já evoluíram ha mais de um século.

Em suma, comparar os problemas da Europa ou até mesmo da França em particular aos nossos é de uma temeridade bem estranha, mas muito ouvida na teoria por socialistas históricos e pelo jeito moucos. Pois simplesmente pelo regime socialista trazer alguma semelhança em seu DNA, fato que eu particularmente desaprovo, pois as ideias de um sujeito que nunca empunhou uma arma e a caminhada maior que fez na vida foi a do caminho da biblioteca pública de Londres para sua casa, fazem de Marx uma leitura incompreendida assim como Maomé.

Mas o grande desafio dos socialistas aliados a Hollande, talvez sejam os mesmos que enfrentamos aqui pelos trópicos, afinal o desemprego é um monstro que ainda devora muito mais que o demônio da inflação, que por aqui parece estar exorcizado e no claustro sob forte cadeado. Mas os franceses devem ter poucos problemas por enquanto com a imigração ilegal dos “pobres do mundo” como costumava alcunhar Sarkozy.

A França ao contrario do Brasil, tem a sorte de não necessitar de seus políticos para conservar tudo aquilo o que conquistou e soube construir desde que cabeças rolaram por Paris. Mas algo é certo, como a morte e o pagamento de impostos. A politica continua a fazer as cabeças girarem com promessas de salvação ou de danação, dependem do santo padroeiro, mas será que somos muitos, de direita, de esquerda, os presbiterianos, os socialistas, os ecologistas e tantos outros para nos dar ao luxo de nos dilacerar e enfrentar de forma dispersa os donos de um poder insensível à nossa razão de viver?
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