segunda-feira, 2 de julho de 2012

Velhos e vaidosos generais



É comum ao politico que perde a capacidade de influir nos destinos de seu próprio partido, coleciona derrotas e acumula mágoas reagir se contrapondo aos líderes ascendentes para marcar posição.


Talvez seja este o grande motivo de o cenário politico amapaense estar tão conturbado quanto o momento anterior, onde em uma ânsia de mostrar um mundo utópico, construído sobre alicerces de palha e barro cru de politica nada altruísta, como atualmente vemos parecer uma verdade sólida.


A democracia é pregada por quase todas as legendas, que quando não destacam o “poder do povo” afivelam-se a um socialismo de quintal, baseado em ideias desvirtuadas dos conceitos originais e que simplesmente compõem uma sigla, mas que da essência já se desvirtuou há muito e nem se dão conta disso.


Algumas lideranças políticas amapaenses parecem esquecer-se disso quando os brios pessoais transcendem a capacidade de um olhar politico, não o partidário que apenas complementa o processo, mas o que o contém como a politica social que é tão apregoada nestes tempos que antecedem as filas das urnas.


O plano de cada um parece ser facilmente interpretado, quando se dissociam do coletivo e buscam apenas entrar no jogo para satisfação pessoal e acerto de contas com velhos oponentes, o que facilmente pode ser lido nas entrelinhas com grande facilidade. E para estes é muito difícil refletir e às vezes e tomar decisões em benefício pleno do coletivo e não do próprio umbigo.


Com infantaria a apregoar as virtudes de um ou outro candidato como o messias a libertar o povo do cativeiro e do látego; fazem com que a população comece a levantar as pálpebras e comece a entender que o universo politico não pode mais ser dissociado da vida comum do cidadão que mesmo avesso às politicagens se vê subitamente atingido pela onda que avança sobre as cabeças de cada um.


Sem medir esforços cada general, seja ele aconselhado pelos velhos guerreiros ou não, comete o mesmo erro crasso de avançar uns sobre os outros como em tabuleiro de xadrez, sacrificando peças menores como se na vida real elas não tivessem nenhuma importância.  E a população cada vez mais reclusa não procura corrigir nas urnas os erros cometidos, pois talvez tenha perdido a fé, já que são relegadas a um segundo plano há tanto tempo que não se acham mais inclusas no plano maior a que tem direito.


Triste ver que nesta guerra a população paga o alto preço da vergonha de ver um Estado se esfacelando e ao mesmo tempo se propagandeando benesses coloridas de uma realidade que parece cada vez mais sair de alternativa para real.


O mesmo povo que está na linha de fogo, pode estar servindo ao mesmo papel que serviu o povo de Leningrado da qual a população viu-se isolada do resto do mundo em uma guerra inglória que sitiou e matou uma cidade inteira por inanição.


Talvez o amapaense ainda não esteja nas vias de fato de se alimentar de lascas de tinta ou batom de gordura bovina, mas com certeza estará mais perto de enxergar que sua terra está sitiada, mas não pela guerra de fuzis e baionetas, mas pela inglória guerra de ver um Estado engessado, com poderes e candidatos guerreando entre si pela bandeira de suas próprias vaidades, onde a população é tratada como espermatozoides, que em grande número são expelidos para trilhar um caminho pelo qual serão sacrificados para que outros passem pela trilha dos sacrificados, para que enfim um único eleito perpetue sua genética.


A única diferença é que nesta corrida conceptiva o prêmio é a vida nova que eclodirá. E no segundo caso é o atraso que promete nascer, crescer e se perpetuar em barcos que navegam em um rio limitado por muros e bondes que correm para o fundo do Amazonas.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Epitáfio Millôrense


Sonhei com Millor Fernandes sentado ao meu lado em uma espreguiçadeira a divagar por uma noite inteira de reflexões, na sua fala me dizia que: bem se sabe que um boi não faz uma boiada e que um erro não justifica os outros. Mas em uma crise institucional de proporções homéricas como a que assola o Amapá. Muito me pasma ver que mesmo com tudo, a população se mantém na inércia, talvez a espera de um milagre messiânico ou quem sabe, assim prefiro acreditar: A espera das urnas!

Demóstenes Torres sempre esteve no púlpito acima de todo bem e do mal. Como um Torquemada, mandou incinerar bruxas e bruxos hereges da democracia e estandartes da corrupção, sob a égide da correição e de suas palavras bem pontuadas e politicamente corretas. “Afinal moralista é o sujeito que sempre acha que você deve fazer o contrario”. Figuras como Demóstenes parecem surgir em cada canto, da FAB à Candido Mendes.

De todo lado, temos estas figuras xifópagas de Demóstenes, como cachoeira e seus clones, que de cantadores de pedra de bingo passaram a bicheiros e de contraventores a criminosos num átimo só.  O que prova duas coisas bem sabidas por qualquer brasileiro seja ele da Cidade de Deus carioca ou do Beiradão jarilense: A corrupção se alojou como o quinto poder. O que nos consola é que “Toda prisão é construída com dinheiro roubado”.

Uma coisa é certa nestes meandros: a lei também parece não estar esmerada em se fazer lei, ou talvez a dama justiça por ser cega tenha se desprovido da vaidade feminina, mas ao que tudo indica; olhos e luzes é o que mais tem os operadores da justiça que sentem-se tão a vontade em frente as halógenas luzes que por si só a dama cega parece não ter importância no processo. Nem mesmo os advogados, pois “Grandes advogados conhecem muita jurisprudência, já os advogados geniais conhecem muitos juízes”.

Em tempos a corrupção em todos os termos tem contribuído muito para que cada vez mais a população perca toda e qualquer fé em um regime democrático como o brasileiro, que tem atualmente exportado exemplos, como o reflexo de Collor em Lugo. Talvez os produtos mais pedidos nesta balança comercial moral sejam as peripécias da corrupção que nos colocam no rol das patuscadas e pantomimas até mesmo por que se sabe a longa data que “Mordomia é ter tudo o que o dinheiro do contribuinte pode comprar”.

De fato mesmo é que o Amapá já deve entrar naquele jargão muito comum propalado pela população carcerária a cerca de suas culpas: “Somos todos inocentes, armaram pra mim dotô”. Criamos esta cultura do conformismo e da banalidade, onde até o critico pseudo-moralista sente inveja do facínora ao ver as benesses que a corrupção lhe trouxe, ao ver que o trafico de influencia e a politicagem comezinha se tornou o sonho de consumo de um fogão ou uma geladeira da linha inox. Somos um “Brasil que ainda é o único país em que os ratos conseguem colocar a culpa no queijo”. E cueca não serve apenas para a genitália.

Insisto que a mãe de todos esses males ainda é a vaidade e as inverdades (por que ser tão infeliz no uso da palavra mentira?), justo que a “Verdade é tudo aquilo que sobra depois que se esgotaram as mentiras”. E da veleidade da vaidade nada mais pode se refutar a não ser que “Não ter vaidade é a maior de todas as vaidades”.

No andar desta carruagem ou carroça? Que parece perder cada vez mais exemplares de Equus asinus toda vez que avança um passo, quero acreditar, quero mesmo, que para cada um dos quadrupedes que caiam, um bípede chegue para repô-lo afinal é para isso que temos um polegar opositor, para agarrar as coisas e não simplesmente tangenciar sonhos.  Um dia a presidente Dilma, com toda a pompa, discursou como o doutor Luther King, com a velha frase: Eu tenho um sonho! E o sonho de Dilma parece ser o mesmo de cada brasileiro. “A reestruturação do estado, visando acabar com o golpe, o suborno, o acobertamento, o compadrio e o nepotismo. Em suma, acabar com os valores tradicionais da politica brasileira”.

É Millor, a gente ainda vai conversar mais vezes...

*As frases em destaque são de autoria de Millor Fernandes.

domingo, 17 de junho de 2012

A via dolorosa do diploma estrangeiro


Recentemente a Assembleia Legislativa realizou uma audiência pública que culminou com o Projeto de Lei 0160/11 que visa garantir a admissão e promoção de professores que detém o título de mestrado ou de doutorado em Portugal ou MERCOSUL no quadro do Estado.

Esta luta muito antiga pela desburocratização do processo de revalidação ou reconhecimento do diploma estrangeiro no Brasil ainda parece demorar mais se em Brasília, via Ministério da Educação não forem feitas as devidas alterações nos termos draconianos das resoluções do CNE/CES que regulamentam, tornando longo e burocrático o processo de revalidação de diplomas de graduação e pós-graduações, sejam elas lato ou stricto sensu feitas no exterior.

Existe uma diferença entre reconhecer um curso de graduação e um de pós-graduação (especialização, mestrado e doutorado). No primeiro caso, o processo pode ser um pouco mais complicado, rigoroso, demorado e o pior de tudo, sem garantias de que a resposta será positiva. O segundo também é longo, mas as chances de ser aceito são bem maiores.

Nas graduações o processo de revalidação é realizado por qualquer universidade pública brasileira que ministre o mesmo curso de graduação realizado no exterior (na mesma área de conhecimento ou em áreas afins). Por isso, antes de viajar de “mala e cuia”, é importante que o estudante avalie a grade curricular do curso estrangeiro que escolheu e compare com os conteúdos ministrados pelas universidades públicas reconhecidas pelo MEC (disciplinas e principalmente carga horária). Isso ajudará a futura revalidação, pois é muito difícil que a universidade simplesmente aceite o diploma estrangeiro sem solicitar que o aluno curse algumas disciplinas e realize provas e exames, com o objetivo de caracterizar a equivalência, verificar os conhecimentos ou simplesmente complementar a formação.

Antes de voltar ao Brasil de vez, tenha em mãos além do diploma, a grade curricular do curso com a descrição de todas as matérias e as respectivas cargas horárias que você cursou o histórico, as notas e todo documento que julgar importante. Para que estes documentos tenham efeito no Brasil, eles devem estar devidamente legalizados pelas autoridades estrangeiras, e isso nada mais é que outro processo burocrático de reconhecimento de firmas (lembre-se: este processo garante que seus documentos não são falsos e que foram expedidos por uma Universidade reconhecida).

Ou seja, todos os documentos devem ser oficiais e assinados por alguma autoridade da universidade. Provavelmente estes documentos também terão que ser enviados a alguma outra autoridade do país estrangeiro (seja o Ministério de Educação ou de Assuntos Exteriores, cada país tem um procedimento distinto) para o reconhecimento das assinaturas. 

Como o Brasil não assinou o convênio de Haia (que permite a reciprocidade entre documentos oficiais emitidos em diversos países) os documentos depois de reconhecidas as firmas devem ser enviados ao Consulado Oficial do Brasil no país em questão para finalmente terminar o processo de legalização.

Terminados os procedimentos no exterior, pode-se dar inicio ao processo de reconhecimento no Brasil, dando entrada no Departamento de Relações Internacionais de uma universidade pública reconhecida pelo MEC. Cada universidade tem autonomia para realizar o seu protocolo de revalidação, mas normalmente os documentos solicitados são bastante parecidos e é necessário o pagamento de certas taxas, além da tradução juramentada dos documentos.

Nas pós-graduações a revalidação é bem menos problemática, complexa e demorada, já que normalmente os cursos são bastante específicos e geram uma dissertação ou tese mais fácil e rápida de ser avaliada.

Mas nem por isso a burocracia é menor. O processo é praticamente o mesmo: para facilitar o processo de revalidação a maioria das universidades brasileiras pede uma cópia da dissertação ou da tese na língua original do país onde foi cursada a pós-graduação. Mas Tenha sempre em conta que cada universidade tem autonomia no processo, ou seja, pode decidir documentação oficial a ser entregue, as taxas, os prazos, comissões…

A ideia de realizar um curso que não existe no Brasil pode ser tentadora em um primeiro momento, mas lembre-se que logo se não existem profissionais capacitados aqui para dizer se o seu diploma é válido ou não, ele não será revalidado.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Utile et Dulce


A inscrição em latim, gravada na mente dos que buscam uma útil e agradável, mobilizadora e prazerosa parceria, talvez tenha sido a ultima expressão que vague nas cabeças dos pré-candidatos a prefeitura de Macapá que neste interim parece mais o Sertão do Seridó que é uma vastidão de terra que fica encravada no ponto mais distante do Estado do Rio grande do Norte, lá, depois de onde acaba a sorte e começa o sofrimento.

Lá o sertanejo é amoroso, sonhador, forte e persistente. Mais ou menos como o amapaense, mas pode ter um ou outro que destoa dos outros, mas são só alguns. Só não se é feliz. Afinal viver sob uma inconstante parece ser a sina de ambos os povos, de lá e cá. Essa semelhança de Macapá do Seridó, digo, com Seridó me faz lembrar as memorias do sertão de padre Ciço e Lampião, mais ou menos isso.

Corria o ano de 1938. “Perigo” era o nome do cachorro de estimação de Severino. Chamar de cachorro de estimação talvez seja consideração demais para com o bicho, mais justo seria dizer cão de serventia, pois era um cachorro para todas as lides, desde tanger o gado (quando havia gado para tanger), vigiar a casa ou aquilo que se podia chamar de casa: uma velha tapera feita a sopapo, na beira da estrada de um lugar onde, quando chovia, formava-se um açude. Perigo também servia para brincar com as crianças, além de ajudar na caça. Aliás, era bom de caça. Da Codorna a Perdiz, passando pelo Gavião e pela Saracura, Gambá e o que mais fosse bom para comer naqueles tempos de seca inclemente. Realmente Perigo personifica quem apoia e ainda acredita no apoiado.

Severino era um homem do sertão, pele curtida no sol do Seridó brasileiro, olhar doce e coração duro. Muito mais pela intempérie que pela natureza, Severino aprendeu a ser frio, lógico e pertinaz. Não era malvado, era razoável. Para sobreviver naqueles tempos, tinha que ter fibra e coragem e ser bom sem ser bobo, ser sabido sem ter letra. Era assim no sertão, onde um homem morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte e de fome antes de ser homem, como já dizia João Cabral de Melo Neto, de Morte e Vida Severina. João mais me lembra o apoiado, que estende a mão da ajuda, mas que na hora da partilha do pão, finge que não há mais pão.

Mas em 38 a seca foi braba. Primeiro, migraram os mais afoitos, depois os menos pacientes, depois os outros também se foram. Ficaram os teimosos. Severino era um destes. Com seu cachorro Perigo, Severino disputou com o Carcará cada broto que nascia, cada bicho que voava; cada presa que corria. Saiam para caçar, toda tardinha, até que foram cada dia mais longe, até as barras da Serra do Navio.

Muitos bichos foram caçados pela espingarda certeira de Severino, graças ao faro infalível do Perigo, que desentocava o bicho, estaqueava e chamava o dono para atirar. Era tiro e queda. No fim do dia, para voltar para o Seridó, Perigo rondava Severino fazendo festa, latindo e pedindo agrado. Severino estava orgulhoso: ninguém havia matado tanta caça quanto ele. E Perigo ali, enchendo a paciência, atrasando a viagem. “Passa cachorro!”

Chegado em casa, ou aquilo que se podia chamar de casa, Perigo foi para debaixo do arbusto que resistia à seca terrível, dormiu feito criança, acordou um pouquinho antes da noite chegar, faminto e faceiro. Severino estava limpando os bichos e olhando para o horizonte, vendo o sol se por atrás da barra. Perigo sentiu-se no direito de fazer uma “boquinha”, comeu um bicho, e dos limpinhos, prontos para salgar. Severino enlouqueceu, pegou a espingarda e atirou certeiro. Matou o Perigo, cão vira-lata, ladrão e vadio. Sem serventia.

Severino, depois disto, comeu a caça e refestelou-se. Muito depois soube-se que ele também perdera a teimosia e era agora mais um retirante fugindo da seca. Sentia saudades do Sertão do Seridó, de Perigo nem se lembrava mais. Enfim é o que vem por ai, uma ingratidão braba!


segunda-feira, 4 de junho de 2012

Brincando no quintal dos médicos


As relações entre médicos e o governo do estado tem se tornado cada vez mais desgastadas e caminham para um sentido quase sem sentido. Mas afinal todo mundo sabia que seriam tempos difíceis e que não se teria um instante de paz e de proveito nos próximos 1460 dias subsequentes a que se concedeu mandato aos que já haviam sido exilados do poder.

Hoje a revolta dos médicos faz paridade às reclamações de muitos trabalhadores que tem gritado e não têm sido ouvidos nem pelo governo, e ao que parece, nem pela opinião pública. Sendo que a segunda tem poder de revolta entendido, pois é a principal interessada e usuária do serviço público de saúde que constantemente entra na UTI e quando parece dar sinais de melhora, vai à coma novamente.

Uma bela manhã de sol em vez de se preocupar em resolver problemas delegando e agilizando ações, o governo resolveu adotar a mania de controle sobre os plantões médicos, sendo esta uma categoria importante, pois tem o domínio sobre as ações da vida e da morte sobre nossas relações harmônicas.

A politica adotada foi mexer em vespeiro, já que as relações trabalhistas referentes a essa atividade plantonista não tem nenhum instrumento contratual que efetive esta relação, logo aos olhos da lei elas inexistem. Afinal o vínculo se estabelece pelo cargo concursado, mas não pela ação dos plantões. A não ser que se queira tornar o juramento de Hipócrates um contrato formal de trabalho.

Falando com conhecimento de causa, pois a maioria da população desconhece o índice de stress contido em um plantão na emergência, da pressão por que passa um residente de PS. Afinal significa muitas vezes significa ir para a guerra levando ao invés de uma arma apropriada, as mãos nuas isso quando os médicos tem que entrar no seu plantão desprovidos se quer de instrumentos básicos, que se não levar os seus; não tem.

Nos meus anos de juventude mais proeminente fiz a escolha da família que queria ter um representante dos que se vestem de frasco de leite de coco, pois como minha mãe já dizia é sempre bom ter um médico e um padre na família, afinal nunca se sabe quando se vai precisar. Graças a Deus não me servi a nenhuma das causas.

Muitas das vezes se diz que médico ganha bem que vive nadando em rios de dinheiro, que sua vida é um mar de rosas. Erro crasso que já começa no traje que deixou ha muito o jaleco branco glamoroso para dar ao lugar à calça e camisa verde abacate com leite.

O erro seguinte é sobre a remuneração médica ser milionária, ledo engano para quem desconhece os percalços e custos para galgar passo a passo desde o processo vestibular até o fim da residência.  Frente a um cargo eletivo em que a única prerrogativa que exige é saber ler e escrever, um médico tem a responsabilidade sobre a vida e muitas das vezes não lhe concede o direito de escolher sobre quem vai ou sobre quem fica.

Afinal, médico tem que fazer escolhas difíceis, mas ao contrario do que se pensa ou sobre a fala errática de Jung sobre alguns médicos terem “complexo de Deus” digo que não procede, caso contrario teria seguido carreira como um deles e não tendo me desvirtuado para o engendro das fórmulas da química.

Mas enquanto se brinca de gato e rato, a saúde e a vida tomam suas próprias decisões, mesmo que autônomas aos desígnios do governador ou das negativas dos médicos em terem pagamento de seus plantões desatrelados da data de seus vencimentos.

Decisão infeliz e prova robusta de que nas mãos de ineptos o poder ao invés de um fardo ou uma dádiva é apenas um brinquedo que as crianças levam para o quintal e se divertem com fantasias, bem ao modelo dos backyardgans que imaginam um mundo inteiro de maravilhas no fundo do quintal.

Pena que os médicos não são fantasias, a crise na saúde não é uma ilusão ou argumento fantasioso da oposição e a população não pode ressuscitar no final do episódio como acontecem nas histórias.

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Madama das Contradições


Experimente chamar a polícia para alguma coisa; ao ver o carro estacionado na frente da tua casa, geralmente os vizinhos pensarão ‘o que fulano fez’. Aqui impera a cultura do ‘culpado até prova em contrário’, quando, na verdade, deveria imperar o ‘in dúbio pro réu’.

Na esteira desse pensamento, o público; que não entende nada de direitos fundamentais (até mesmo porque não interessa a ninguém ensiná-los, pois isso tornaria mais difícil a violação deles), ao ver as execrações públicas que ocorrem quase que diariamente, pensa-se logo com a linha de sentença: é culpado!

Uma pessoa ou instituição despida de seus direitos, com base em uma leitura errática ou dúbia da lei, ou até mesmo proposital comete o ilícito pelo qual se pressupõe investigar.

A imagem do direito é maculada por estes que fingem ser guardiães das portas da casa da dama cega. Mas que promovem todos os estratagemas para violar a honra, arranhar a imagem e como se tal não bastasse, ainda tornar público a milhões de pessoas todo o constrangimento direcionado por qual se passou com o único fim de derrotar, de desarticular e julgar seus desafetos pelas mãos da tal justiça limpa.

E o público acha isso absolutamente ‘natural’. Não, não é. Ainda que se tivesse cometido algum ilícito, isso não destituiria ninguém de seus direitos, que são imprescritíveis e irrevogáveis. Nosso sistema jurídico é totalmente subordinado à Constituição e se funda no respeito à dignidade humana.

Esse comportamento, que poderia ser compreendido (não desculpado), se adotado por leigos, é inadmissível e indesculpável quando quem o adota é uma autoridade. Isso abre sérios precedentes para um momento de nossa história em que todos os direitos e garantias do cidadão foram sequestrados em prol de um inimigo invisível.

Para o exercício das vertentes do direito é exigido o conhecimento do direito; cuja formação exige o conhecimento aprofundado da Lei, no mínimo isso. Afinal ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer algo senão em virtude de lei: nada no ordenamento jurídico autoriza que se opere de qualquer forma em busca de provas. Nada nem ninguém é obrigado a obedecer a ordem manifestadamente ilegal: como a ordem para despir-se de seus direitos tão amplamente suados na conquista.

Lembrando a lição de Celso Antonio Bandeira de Mello (in ‘Discricionariedade e controle jurisdicional’, Ed. Malheiros, 13ª edição, pg.13):

“… enquanto o particular pode fazer tudo àquilo que não lhe é proibido, estando em vigor, portanto o princípio geral de liberdade, a Administração só pode fazer o que lhe é permitido. Logo, a relação existente entre um indivíduo e a lei, é meramente uma relação de não contradição, enquanto que a relação existente entre a Administração e a lei, é não apenas uma relação de não contradição, mas também é uma relação de subsunção...”

Parafraseando Forrest Gump: Isso é tudo o que eu tenho a dizer sobre isso.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

O Maquiavélico Tucujú


Não é possível falar de contendas e meandros políticos sem citar Maquiavel que afirmava que o príncipe deve aprender a ser raposa e leão, mas nunca cordeiro. É curiosa a associação que o literato faz com a animalidade. Efetivamente, o simbolismo desses animais é bastante rico e enseja um sem-número de questões. Poderíamos, por exemplo, encaminhar esta análise para identificar a posição do Príncipe entre os seres metamórficos amapaenses.

Um destes seres é o mestre das metamorfoses, capaz de assumir toda e qualquer forma a hora que quiser, seja a de vítima, de opositor, de ignorante (não ofensivo) ou de sumidade. O nosso metamorfo politico é capaz de, pela sua metamorfose, enganar a quase todos que tem olhos destreinados às suas artes circenses e dos sortilégios obsoletos.

Seu poder repousa nas incontáveis formas que ele pode assumir. Ele tanto chega quanto desaparece de repente; ele apanha inesperadamente, e somente se deixa apanhar de modo a poder escapar. O meio essencial com que controla seus feitos espantosos é sempre a metamorfose.

Um poder real, o mestre das metamorfoses alcança na qualidade de xamã, invocando os poderes da floresta em seu proveito próprio. Em sua sessão, ele invoca espíritos aos quais submete; fala-lhes a língua das matas, transforma-se num deles e é capaz de, à maneira deles, dar-lhes ordens. Transforma-se em pássaro ao empreender sua viagem pelo céu e voar para longe das tormentas para fingir ação.

Na qualidade de animal marítimo, desce ao fundo do mar para fugir do mergulho de lama. Tudo lhe é possível, afinal detém um cheque em branco endossado pelo povo que o acreditou um ser metafísico. Seu paroxismo resulta da sucessão intensa e veloz de mais metamorfoses que o chacoalham até que, dentre elas, ele tenha escolhido aquela de que verdadeiramente necessita para seus propósitos.

O mestre das metamorfoses é aquele capaz das mais numerosas metamorfoses; se comparado à figura do rei sagrado e de mártir imolado que faz questão de apregoar. Sempre pregando um milagre inexistente, mas mesmo com as sucessivas metamorfoses continua com a essência sempre idêntica a si mesmo, fazendo com que ninguém possa aproximar-se dele ou mesmo, em muitos casos, olhá-lo, para que não se perceba suas imperfeições dicotômicas.

Este mítico ser, embora propagandeie um caráter estático, nada mais é do que um grande imbróglio á sua arte escura de metamorfosear-se, finge-se articulador do bem comum embora dele partam incessantes ordens a metamorfosear os outros, penetrou na essência do poder, para executar suas ações e acender fogos de artifício com elas.

Pensa fortemente que sua “divindade” não lhe permite descer de sua altura, ir ao encontro das pessoas; mas decerto pode elevar os outros, nomeando-os para este ou aquele posto. Pode transformá-los, elevando-os ou rebaixando-os de acordo com sua vontade ou grau de veneração que lhe dão.

Triste olhar por esta luneta mágica, que não pode ser socializada com os demais membros da população, pois para que isso ocorra se deve barrar os plenos poderes desse “rei” que tem como seu princípio básico; afastar a posse da visão límpida, dessa luneta mágica que faria com que todos os vissem despido desses sortilégios. A educação! Que tem sido meta do “rei” fazê-la nunca chegar a todos. Assim o “rei” nunca ficará nu.
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